ROAD – ROAD (1972)

Outubro 29, 2009

Road - Capa

    Único registro deste power trio matador que contava com o baixista inglês Noel Redding, ex-integrante do lendário The Jimi Hendrix Experience. Morando em Los Angeles e vindo de outra experiência sonora como guitarrista do Fat Mattress (grupo inglês com 2 álbuns lançados em 1969 e 1970), Redding chamou o guitarrista americano Rod Richards (ex-Rare Earth) e o baterista inglês Leslie Sampson e juntos pavimentaram um som para levantar a poeira do asfalto, sair cantando pneu e seguir em disparada nas trilhas do hard e do acid rock. Um território, aliás, muito bem explorado nos anos 60 e 70 por agrupamentos como o Cream, Blue Cheer, Steppenwolf ou o próprio Experience. 

    Pegando carona nessa vibe e bebendo da mesma fonte venenosa, o Road era composto por um trio virtuoso que impunha uma pegada poderosa, dosando peso a climas viajantes. Um combustível lisérgico que alimentava uma sonoridade com timbres e tons psicodélicos envolvidos em linhas de baixo estilosas e guitarras wah-wah em profusão. O álbum que leva o nome da banda foi lançado em 1972 pelo selo americano Natural Resources (uma divisão da Motown) e relançado em 2003 pela gravadora italiana Akarma em vinil 180 gramas, capa dupla, edição de luxo e tiragem limitada. Em CD, foi lançado em 1997 pela gravadora Free Records. São sete faixas que mostram toda a potência sônica que era praticada pelo grupo: um hardão de safra empoeirada e timbres marcantes. 

    O play inicia o percurso dos bons sons com “I’m Trying”, guiado por uma melodia ensolarada, alternâncias climáticas chapantes e condução rítmica impecável. Muitas léguas andei nessa estrada e posso afirmar em alto e bom som que já se tornou um clássico do rock setentista, pelo menos para este bolha sinistro que aqui tecla. “I’m Going Down to the Country” conduz a viagem astral a um rumo incerto, numa levada entorpecida de psicodelia e com o slide correndo solto. Me faz sentir como um forasteiro embriagado, vagando em pleno velho oeste e sendo consumido pelo sol escaldante do meio-dia. Cruel! 

    Outros destaques do álbum são as faixas “Mushroom Man” (com timbres saturados, microfonias, clima hipnótico e letra narrando uma provável viagem lisérgica da trupe), “Man Dressed in Red” (outra pérola sônica embebecida em ácido, com mais guitarras wah-wah, baixão de timbre cavernoso e efeitos psicodélicos colorindo o ambiente sonoro), “Spaceship Earth” (em nova performance arrasadora do trio estradeiro que comete mais um hard rock de naipe psicodélico, em sintonia cósmica com o seu tempo) e “Road” (que fecha o roteiro em grande estilo, expondo no horizonte um petardo sônico de intensa selvageria, onde o grupo expele um hardão setentista dos bons). Taí um Long Play que continua em alta rotatividade aqui no pedaço. On the Road again!

NOEL REDDING 4

Noel Redding com o pé na estrada

    Projeto abortado, Redding foi morar na Irlanda e formou a Noel Redding Band ao lado do batera Leslie Sampson, do vocalista e tecladista Dave Clarke e do guitarrista Eric Bell (ex-Thin Lizzy e Them). A banda lançou dois álbuns – Clonakilty Cowboys (1975) e Blowin (1976) – antes de se separar em 1976. Depois disso, o músico inglês continuou gravando e excursionando esporadicamente ao longo dos anos e, ocasionalmente, participando de gravações com alguns grupos – entre eles Thin Lizzy, Traffic e Phish.Também criou o combo Shut Up Frank com os músicos Dave Clarke, Mick Avory (The Kinks) e Dave Rowberry (The Animals), excursionando e gravando álbuns pela estampa Mouse Records

    Sem nunca ter alcançado as glórias dos tempos em que dividia o palco com Jimi Hendrix e Mitch Mitchell no Experience – e onde gravou os obrigatórios Are You Experienced? (1967), Axis: Bold As Love (1967) e Electric Ladyland (1968) – Noel Redding infelizmente nos deixou em 11 de maio de 2003, aos 57 anos, vítima de complicações decorrentes da cirrose hepática. Uma grande perda para o mundo do rock, mas sua obra está espalhada por aí e pode ser apreciada, curtida e celebrada sem moderação. 

Faixas: 01. I’m Trying / 02. I’m Going Down to the Country / 03. Mushroom Man / 04. Man Dressed in Red / 05. Spaceship Earth / 06. Friends / 07. Road 

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ROAD – I’M TRYING

ROAD – I’M GOING DOWN TO THE COUNTRY

ROAD – MUSHROOM MAN

ROAD – MAN DRESSED IN RED

ROAD – SPACE SHIP EARTH

 

ROAD – FRIENDS

ROAD – ROAD


COSMIC TRAVELERS – LIVE! AT THE SPRING CRATER CELEBRATION DIAMOND HEAD, OAHU, HAWAII (1972)

Setembro 1, 2009

cosmic travelers

    Submerso no pântano das obscuridades musicais, outro disco altamente recomendado é este Live! At The Spring Crater Celebration Diamond Head dos Cosmic Travelers, gravado em Oahu, uma ilha do arquipélago do Havaí. A sonoridade chaparral deste grupo de Los Angeles vai agradar aos fãs de Lynyrd Skynyrd, Black Oak Arkansas, James Gang, Grand Funk Railroad, Cactus, Blue Cheer e combos correlatos do rock setentista.

    O show foi realizado em 1° de abril de 1972 durante o festival anual que, curiosamente, reunia bandas para tocar no interior de uma cratera vulcânica chamada Diamond Head – evento aliás, que voltou a ocorrer em 2006 e 2007, mais de 30 anos após a sua última edição, trazendo atrações como Steve Miller Band, War e Earth, Wind and Fire. E foi pensando especialmente em participar do festival havaiano que os Viajantes Cósmicos se agruparam em 1972, dispostos a emanar suas boas vibrações sonoras. O resultado está registrado nesta gravação que capta a performance visceral da trupe em sua única apresentação pública.

    As artimanhas sônicas giravam em torno do guitarrista Drake Levin (ex- Paul Revere & The Raiders, Brotherhood e Lee Michaels Band), do guitarrista Jimmy McGhee, do baixista e aqui vocalista Joel Christie (ex-Lee Michaels Band) e do baterista Dale Loyola (ex-The Hook) – este último mais conhecido como “Mule”, por desferir golpes pesados em seu instrumento. Um quarteto composto por veteranos músicos de estúdio que nos intervalos das sessões, maquinaram e ensaiaram um repertório com composições alheias calcadas nas correntes do blues, R&B e do soul.  

cosmic travelers - poster

Pôster que acompanha o raro álbum dos Cosmic Travelers  

    Destaques para o clássico blueseiro “Farther Up The Road” de Joe Veasey e Don Robey e sua levada malandrérrima e altamente pegajosa; para a espirituosa “Move Your Hands”, numa versão matadora do tema jazz-funk lançado em 1969 pelo organista norte-americano Lonnie Smith; e para a varada na alma chamada “Soul”, impregnando o espírito de timbres e efeitos guitarrísticos profanos. Para deixar o ambiente mais empoeirado possível, ainda tem cover de Dave Mason (ex-Traffic) na faixa “Look At You Look At Me” em uma chapante jam session de 10 minutos.

    Faixas poderosamente energéticas onde o guitarrista Jimmy McGhee mostra por que era celebrado como um dos legítimos discípulos de Jimi Hendrix, saturando de efeitos fuzz os seus solos faiscantes e dando ao blues uma credencial psicodélica. Microfonias e imundices sonoras à parte, aposto minhas coleções de Allman Brothers e Grand Funk se esta relíquia não vai fazer a cabeça dos bolhas jurássicos que curtem o bom e velho southern rock ou um hard blues venenoso das antigas. 

    Esta raridade discográfica lançada pelo selo Volcano Records (reeditada em 2000 pela Dodo Records) e que vem acompanhada de um pôster com fotos da banda on stage, eu encontrei exposta naquela parede fantástica da finada Nuvem 9, freqüentemente recheada com títulos sensacionais. Quem freqüentou a loja sabe do que estou falando. A capa “flower and power” lindona é cortesia do ilustrador Jim Evans e reproduz alguns dos símbolos locais como a flor Hibiscus havaiano e o ganso do Havaí (também conhecido por Branta sandvicensis), além de retratar o colorido característico da região e o seu clima tropical.

    Uma pena que o grupo só tenha lançado esse material. Uma seqüência na efêmera carreira teria sido muito bem-vinda já que a química e o talento demonstrados pelos rapazes nesse trabalho são evidentes. Um tesouro do rock setentista pouco ou nada conhecido por estas plagas tupiniquins. Portanto, não perca tempo: pegue o seu passaporte cósmico e embarque sem restrições rumo ao planeta dos bons sons. Boa viagem!   

Faixas: 01. Farther Up The Road / 02. Move Your Hands / 03. Jungle Juice / 04. Look At You Look At Me / 05. Soul / 06. Soul Reprise

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ERIC CLAPTON E JEFF BECK – FARTHER UP THE ROAD

 

LONNIE SMITH – MOVE YOUR HAND


TITUS GROAN – TITUS GROAN (1970)

Agosto 13, 2009

TITUS GROAN

    A capa com ilustração horripilante pode até causar um calafrio dos diabos, mas a música que sai dos sulcos do disco é uma maravilha só. Lançado originalmente em outubro de 1970 pela Dawn Records, o álbum do Titus Groan é dessas obscuridades musicais que fazem com que este bolha sinistro continue vagando pelos sebos em busca de raridades discográficas perdidas no tempo. Ostentando um nome estranho retirado da literatura gótica (é o título do primeiro livro da trilogia de Gormenghast, de Mervyn Peake, publicado em 1946), este misterioso grupo do Reino Unido durou menos de um ano, mas o tempo suficiente para produzir este único e excelente registro. 

    Em apenas 5 faixas, o quarteto mostra toda a sua criatividade e ousadia nas instrumentações. Composições alucinantes tocadas de forma magistral pelos músicos Stuart Cowell (guitarra, teclados e vocais), Tony Priestland (sax, flauta, oboé e sopros em geral), John Lee (baixo) e Jim Toomey (bateria e percussão). O som denota certa aura medieval, agregando elementos do folk, rock progressivo, hard rock e jazz-rock. Nada menos que intrincadas maquinações sonoras dissolvidas em arranjos envolventes e melodias apuradas, criando momentos de puro deleite musical.

    Temas como as estilosas “It Wasn’t For You” e “I Can’t Change”, ou ainda a magnífica suíte “Hall Of Bright Carvings” (título do primeiro capítulo do livro que batizou a banda) indicam uma irrefutável afinidade sonora com grupos britânicos de mesma linhagem como Jethro Tull, Caravan, Colosseum, Traffic ou East of Eden. O entrosamento e a inventividade dos músicos envolvidos impressionam. É notável a interação entre os fraseados de guitarra e os instrumentos de sopro, sem falar no audacioso trabalho percussivo e nas sutis passagens de órgão com texturas medievais.

    Outra faixa indispensável é a agradável “Its All Up With Us”, com linha melódica e sonoridade mais acessíveis do que nas outras composições, muito por conta da levada mais pop e da bela harmonização vocal da trupe. No contexto geral, uma sonzeira esquecida no tempo e entregue aos garimpeiros do universo bolha, colecionadores de raridades vinílicas e alienígenas de Internet atentos a downloads empoeirados. 

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Capa do livro de Mervyn Peake, o 1° da trilogia de Gormenghast

    Logo após o lançamento do disco – e em meio a críticas elogiosas da imprensa britânica – a gravadora Dawn promoveu um giro do Titus Groan pela Inglaterra com a participação de outros grupos do seu cast: os não menos obscuros Demon Fuzz, Comus e Heron. Tenebrosamente, a tour foi um fracasso colossal e menos de um ano após a sua fundação, a banda encerrou as atividades. Seus integrantes simplesmente desapareceram do mapa musical, mas ao menos deixaram esta raridade pelo caminho.

    Quando em 2000 a Get Back relançou esta pérola perdida, não hesitei e adquiri uma cópia em vinil 180 gramas, prensagem italiana, capa dupla e com três faixas bônus: uma versão de “Open The Door, Homer” de Bob Dylan, a belíssima “Woman Of The World” e “el grude sônico para estalar los dedos” chamado “Liverpool”. Estas três músicas foram soltas em um maxi-single pela Dawn em 1970, poucos dias antes do lançamento do álbum homônimo da banda. Vale lembrar que nenhuma delas foi incluída no play original. Taí um clássico empoeirado absoluto. E agora, aditivado. 

Faixas: 01. It Wasn’t For You / 02. Hall Of Bright Carvings – a) Theme – b) Dusty High-Value Hall – c) The Burning – d) Theme / 03. I Can’t Change / 04. It’s All Up With Us / 05. Fuschia – Bônus: 06. Open The Door, Homer / 07. Woman Of The World / 08. Liverpool

Download parte 1: http://sharebee.com/b98e4912  

Download parte 2: http://sharebee.com/450c18cc

TITUS GROAN – HALL OF BRIGHT CARVINGS (PARTE 1)

TITUS GROAN – HALL OF BRIGHT CARVINGS (PARTE 2)

BOB DYLAN – OPEN THE DOOR, HOMER


PAUL KOSSOFF – BACK STREET CRAWLER (1973)

Julho 18, 2009

    Back Street Crawler é o primeiro e único trabalho solo de Paul Kossoff, um dos meus guitar heroes de predileção. Lançado em 1973, o álbum é na verdade uma compilação de jam sessions gravadas em estúdio com a participação de todos os parceiros do Free – o trio Paul Rodgers (vocal), Andy Fraser (baixo) e Simon Kirke (bateria), e ainda Tetsu Yamauchi (baixo) e Rabbit (órgão e piano) -, além de outros músicos camaradas. Sem titubear, coloco este maravilhoso registro no mesmo patamar de outras obras clássicas da banda inglesa, como Tons of Sobs (1968), Free (1969), Fire and Water (1970) ou Highway (1970). 

    Na época do lançamento deste play, Kossoff se encontrava em estágio avançado de auto-aniquilação, consumindo heroína de forma alucinada e sem condições físicas ou mentais de gravar um disco inteiro. Em fase barra-pesada total, este debut discográfico chegava em boa hora já que, sem dúvida alguma, é um dos pontos altos de sua carreira. Em apenas 5 faixas, o guitarrista traduz o seu talento em performances arrebatadoras e exibe algumas de suas características marcantes: solos agressivos, vibratos mágicos, a incrível classe na economia das notas e um feeling descomunal. 

    O lado A do vinil é inteiramente ocupado pela monstruosa “Tuesday Morning” com seus 17 minutos de improvisações, quebradeiras e passagens distintas, num instrumental peso-pesado onde a guitarra de Kossoff impõe um som escabroso e rude. Uma pérola do rock setentista, com direito a uma cozinha de respeito conduzida pelo baterista Alan White (Yes) e pelo baixista Trevor Burton (The Move). Rabbit aparece com estilo nos teclados, aumentando o rol de intervenções debulhantes. Great sound!

    A ultra suingada “I’m Ready” abre o lado B numa levada rítmica cheia de malandragem, com Jess Roden rasgando nos vocais. “Time Away” expõe um instrumental de arrepiar, com solos de guitarra chapantes, timbres singulares e um feeling impressionante. Para acompanhar o inspirado Kossoff, um trio formado por Tetsu, Simon Kirke e o guitarrista John Martyn. Um blues rock de primeira!

paul kossoff 02

Koss e sua Gibson Les Paul

    Um dos destaques do LP é a bela “Molten Gold”, onde os integrantes do Free se reúnem para executar uma balada intensa e emocionante. O vocal impregnado de soul de Paul Rodgers e as investidas de guitar de Mr. Koss são de arregaçar a alma. “Back Street Crawler” encerra o álbum com o quarteto Kossoff, Conrad Isidore (bateria), Clive Chaman (baixo) e Jean Roussel (teclados) mandando ver em mais um instrumental excepcional. Baita disco!

    Para os bolhas que viviam dizendo que o único defeito do álbum era a sua curta duração, com poucas faixas e tal, a boa notícia chegou em 2008: Back Street Crawler foi relançado pela série Deluxe da Universal britânica. A edição dupla contém não só o álbum original remasterizado digitalmente, como 15 versões inéditas, takes alternativos, covers para “The Lady Is A Tramp” e “May You Never”, além de fotos raras e um encarte especial. Taí um bom motivo para falir, sem dó nem piedade! 

    Alguns meses após a sua estréia solo, Kossoff utilizaria o nome do disco para batizar a sua nova banda, o Backstreet Crawler. O combo gerou dois discos – Play On (1975) e Second Street (1976) -, mas sem a mesma repercussão dos tempos do Free. Infelizmente, o talento de Kossoff para a guitarra era proporcional ao seu vício em heroína. O genial guitarrista morreu em 19 de março de 1976, com apenas 25 anos, depois de sofrer um ataque cardíaco durante um vôo entre Los Angeles e Nova York. Era o fim da linha desta lenda chamada Paul Kossoff. 

Faixas: 01. Tuesday Morning / 02. I’m Ready / 03. Time Away / 04. Molten Gold / 05. Back Street Crawler 

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PAUL KOSSOFF – TUESDAY MORNING (PARTE 1)

PAUL KOSSOFF – TUESDAY MORNING (PARTE 2)

PAUL KOSSOFF – TIME AWAY

PAUL KOSSOFF – MOLTEN GOLD


BABE RUTH – FIRST BASE (1973)

Junho 27, 2009

BABE RUTH - MELHOR

    First Base do Babe Ruth é daqueles discos que me conquistaram logo na primeira orelhada. O álbum lançado pelo selo Harvest (EMI) em 1973 é a brilhante estréia da banda inglesa de Hatfield, e traz em suas 6 faixas uma interessante combinação de estilos, reunindo características do hard rock, rock progressivo, jazz e música pop. 

    Criado em 1971 pelo guitarrista Alan Shacklock e conhecido inicialmente como Shacklock, o grupo logo teve seu nome alterado para Babe Ruth, em homenagem ao lendário jogador de baseball americano George Herman “Babe Ruth”. Mudanças no line-up, cinco discos oficiais lançados entre 1973 e 1976, um longo recesso e o retorno em 2002 – quando começaram a compor o álbum Que Pasa, só finalizado em 2006. O certo é que o combo nunca mais  alcançou o mesmo nível de qualidade musical de First Base

    A formação neste debut discográfico incluia Alan Shacklock (guitarra, vocais, órgão e percussão), Janita “Jenny” Haan (vocal), Dave Hewitt (baixo), Dick Powell (bateria e percussão) e Dave Punshon (piano e piano elétrico). Outros músicos que marcaram presença no Abbey Road Studios, em Londres, foram Gaspar Lawal (congas, bongos, kabasa), Brent Carter (saxofone) e Harry Mier (oboé), além de um quarteto de violoncelistas composto por Peter Halling, Clive Anstee, Manny Fox e Boris Rickleman. 

    Com arranjos bem estruturados, a arquitetura sonora era moldada por uma cozinha robusta, passagens sutis e estilosas de teclados, riffs e frases precisas a cargo do guitarrista Alan Shacklock (que também fez os arranjos e escreveu boa parte  das composições) e claro, pelo poderoso e marcante vocal de Janita Haan. Seu canto, pode-se dizer, é algo próximo de uma mistura dos timbres vocais de Robert Plant e Janis Joplin. Um arraso!

babe ruth - janita haan maior

Janita “Jenny” Haan

    O álbum abre com a faixa “Wells Fargo”, numa pegada hard rock, mas com piano elétrico constante, intervenções maneiras de sax e um instrumental refinado que dá um revigorante aspecto jazzístico à composição. “The Runaways” tem estruturas harmônica e melódica de intensa beleza, realçadas por instrumentos de cordas, oboé e o piano elétrico de Punshon. Agora a voz expressiva de Janita Haan passeia em meio a uma balada mezza folk, mezza progressiva, com uma sonoridade que se assemelha aos conterrâneos do Renaissance. Nesta faixa primorosa, a bateria é pilotada por Jeff Allen.

    Encerrando o lado A do vinil, uma versão simples e honesta de “King Kong” – obra de Frank Zappa, gravada com o Mothers of Invention originalmente no álbum Lumpy Gravy (1968) e retomada com maior consistência no duplo Uncle Meat (1969). Um clássico zappiano gravado sem nenhum overdubbing ou qualquer tramóia eletrônica, conforme indica a contra-capa do disco. Grande homenagem ao mestre!

    O lado B tem início com “Black Dog”, outra bela canção interpretada de forma sublime por Janita que mais uma vez é muito bem assessorada por teclados, guitarra e uma condução rítmica impecável. Mas o maior destaque do álbum é a faixa “The Mexican”, trazendo à tona a clássica “Per Qualche Dollaro in Piu”, tema “Western Spaghetti” do compositor e maestro italiano Ennio Morricone, numa versão original e simplesmente espetacular. Não é exagero afirmar que esta é uma das minhas músicas prediletas em todos os tempos.

    Fechando o disco, “Joker” engatilha outro hard rock fulminante, com ótimos fraseados e riffs de guitarra, base percussiva animal e a voz contundente de Janita – aliás, bem parecida também com o timbre da vocalista Inga Rumpf, da banda alemã Frumpy. Sonzeira!

    Apesar das críticas favoráveis na época de seu lançamento, o álbum obteve pouco sucesso comercial na Grã-Bretanha, só alcançando relativo sucesso nos Estados Unidos e no Canadá. A capa (com desenho futurista que sugere uma partida de baseball em pleno espaço sideral ou quem sabe, na escuridão do fundo do mar) tem a assinatura de ninguém menos que Roger Dean, o cultuado designer e ilustrador inglês, responsável pela criação de capas antológicas de álbuns do Yes, Uriah Heep, Budgie, Greenslade, Osibisa, Atomic Rooster e Asia, entre tantos outros grupos de respeito. É só a embalagem de uma obra indispensável para os amantes da boa música e item obrigatório numa coleção de respeito.

    Já tinha o CD velho de guerra e no começo do ano, consegui o vinil original (made Canadá) em excelente estado e por um preço pra lá de camarada. Tacada de mestre!

Faixas: 01. Wells Fargo / 02. The Runaways / 03. King Kong / 04. Black Dog / 05. The Mexican / 06. Joker 

Download: http://www.mediafire.com/?e3zjnigtm0u

Senha: LUCY  

BABE RUTH – WELLS FARGO

BABE RUTH – THE RUNAWAYS

BABE RUTH – KING KONG

ZAPPA / MOTHERS OF INVENTION – KING KONG

BABE RUTH – BLACK DOG

BABE RUTH – THE MEXICAN

BABE RUTH – THE MEXICAN

ENNIO MORRICONE – PER QUALCHE DOLLARO IN PIÙ (ABERTURA DO FILME DE SERGIO LEONE)

PER QUALCHE DOLLARO IN PIÙ (TRECHO FINAL DO FILME DE SERGIO LEONE)


GENTLE GIANT – ACQUIRING THE TASTE (1971)

Maio 30, 2009

Gentle_Giant_-_Acquiring_The_Taste_-_Front

    Infalivelmente uma das mais fascinantes e criativas agremiações do rock progressivo em todos os tempos, o Gentle Giant surgiu em 1970 a partir das cinzas do combo Simon Dupree and The Big Sound. O grupo britânico criado pelos irmãos Derek, Ray e Phil Shulman marcou seu nome na história do rock desenvolvendo uma sincronia sonora cabulosa, combinando prog rock, hard rock, jazz, folk e elementos de músicas medieval, renascentista, barroca e clássica.

    Sua estrutura musical complexa, sofisticada e de raríssima beleza, conseguiu cativar este bolha sinistro ao longo dos anos, ao passo em que explorava a sua discografia. Bandaça, cujo símbolo e mascote é uma cria do escritor renascentista francês François Rabelais: ninguém menos que Pantagruel, o gigante gentil que inclusive protagoniza algumas das letras da turma. Em 10 anos de carreira, lançaram 12 discos oficiais – a maioria deles, verdadeiras pérolas do progressivo. 

    Os oito primeiros discos (mais o ao vivo Playing the Fool, de 1977) são essenciais para ir a fundo no que de melhor a banda produziu em uma década de existência, antes de encerrar as atividades em 1980. Já que o assunto são obras primas discográficas do Gigante Gentil, nada melhor do que postar aqui no blog o segundo álbum do grupo, lançado em 1971 pelo cultuado selo Vertigo: o experimental e sombrio Acquiring the Taste. Engraçado que não era o meu disco predileto da trupe – curtia mais o Three Friends (72), o Octopus (72) e o The Power and The Glory (74) – mas diríamos que com o tempo, fui adquirindo gosto pela coisa e hoje é o meu play favorito. 

    A formação aqui era a mesma do primeiro álbum homônimo, lançado em 1970: Derek Shulman (vocal, saxofone e clavicórdio), Ray Shulman (baixo, violino, viola, violão de 12 cordas, guitarra espanhola, tamborim e vocais), Phil Shulman (vocal, saxofone, trompete, clarinete, piano e maracas), Kerry Minnear (piano elétrico, órgão, Moog, mellotron, xilofone, vibrafone, clavicórdio, cravo, maracas e vocal), Gary Green (guitarras de 6 e 12 cordas, percussão e vocais) e Martin Smith (bateria, tamborim e percussão). É notável a parafernália de instrumentos pouco utilizados na esfera do rock. É também o segundo e último disco do GG com produção do mago Tony Visconti (que deitou fama produzindo trabalhos de David Bowie, T. Rex e outros tantos artistas e bandas no decorrer da carreira). 

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Gary Green, Ray Shulman e Kerry Minnear em 1975

    A ousada capa de Acquiring The Taste trazia um desenho que, a princípio, mais parecia uma língua prestes a lamber um traseiro. Porém, ao abrir a capa dupla, a imagem pervertida é desvendada: o suposto traseiro não passa de um pêssego, próximo de ser devorado. Uma iguaria sonora pra lá de suculenta, contendo uma coleção magnífica de músicas estranhamente belas e dissonantes, feitas para pulverizar a mente dos incautos.

    Faixas como “Pantagruel’s Nativity”, “Edge Of Twilight”, “The House, The Street, The Room”, “Wreck”, “The Moon Is Down”, “Black Cat” ou “Plain Truth” mostram toda a inventividade e técnica do sexteto: harmonias melódicas surreais, texturas sonoras fantásticas, camadas vocais assombrosas, riqueza absurda nas composições, arranjos estranhamente belos, ousadia instrumental sem igual e nada, nadinha de melodias fáceis. Tudo sob a tutela de músicos de outra dimensão. Um disco anticomercial, de sonoridade difícil e que deu a eles o status de banda cult. Um registro no mínimo indispensável! 

    Um detalhe é que todos os músicos que passaram pelo Gentle Giant – incluindo os bateristas Malcolm Mortimore (que participou do álbum Three Friends) e o maluquete John  Weathers (que estreou no excepcional Octopus e permaneceu na banda até o fim, gravando o derradeiro Civilian de 1980) – eram virtuoses em seus instrumentos. Kerry Minnear, por exemplo, não é só um dos melhores tecladistas da história do rock, como também é mestre arranjador e graduado em composição na Academia Real de Música. E o quê falar da versatilidade nas instrumentações dos irmãos Shulman? E quanto às geniais intervenções guitarrísticas de Gary Green? Surreal, meus amigos… surreal! 

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Derek Shulman segurando a onda do Gigante Gentil

    Outro fator importante é que todos os integrantes cantavam. E como compreender o entrosamento vocal sobrenatural dessa turma? Coisa de louco! Uma combinação de vocais múltiplos e sincronizados, criando uma atmosfera do além. Os solos vocais ficavam a cargo principalmente de Derek Shulman (aquele com a voz mais grave e pesada), mas Kerry Minnear (com seu timbre suave e celestial) e Phil Shulman (cuja voz se situa, por suas características, no meio das duas anteriores, no meio-termo) também participam com maestria das vocalizações. Vale lembrar que Phil deixou a banda em 1973, pouco depois do lançamento do álbum Octopus. 

    No palco, o show de virtuosismo era marca registrada da banda. Todos eles multi-instrumentistas, chegavam a provocar admiração e assombro do público com a mudança freqüente de instrumentos, e também com a complexidade e a riqueza de suas composições e arranjos. Uma banda com um grau de excelência do mesmo nível de outros monstros sagrados do progressivo britânico como King Crimson, Yes ou Emerson, Lake & Palmer, por exemplo. Vejam o DVD Giant on the Box (com apresentações do grupo em emissoras de TV da Alemanha e dos Estados Unidos entre 1974 e 1975) e comprovem. Simplesmente fantástico! 

    Buenas, a verdade é que sou um bolha bem suspeito pra falar de Gentle Giant. Prova maior é que recomendo toda a discografia da banda, mesmo porque discos bem menos inspirados como The Missing Piece (77), Giant For a Day (78) ou mesmo Civilian (80), são bem melhores que muitas das babas sonoras produzidas na música de tempos em tempos. Certeza! 

Faixas: 01. Pantagruel’s Nativity / 02. Edge Of Twilight / 03. The House, The Street, The Room / 04. Acquiring the Taste / 05. Wreck / 06. The Moon Is Down / 07. Black Cat / 08. Plain Truth 

Download: http://www.megaupload.com/?d=EPCVUBTJ

ou

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GENTLE GIANT – PANTAGRUEL’ S NATIVITY

GENTLE GIANT – EDGE OF TWILIGHT (WITH THE MUPPETS)

THREE FRIENDS (KERRY MINNEAR, GARY GREEN, MALCOLM MORTIMORE…) – THE HOUSE, THE STREET, THE ROOM

GENTLE GIANT – WRECK

GENTLE GIANT – BLACK CAT


MAMMA CADELA – EM BUSCA DA VERDADE (2006)

Abril 30, 2009

mamma-cadela-web

    Nos últimos anos o rock instrumental brazuca tem mostrado força e vigor com o surgimento de grandes bandas no cenário nacional, e exemplos dessa vitalidade não faltam: Pata de Elefante (RS), Macaco Bong (MT), Retrofoguetes (BA), Go! (RJ), Gasolines (SP), Chimpanzé Clube Trio (SP), Guizado (SP) e por aí vai. Seguindo esta estética sonora, o Mamma Cadela despontou na cena underground de São Paulo, e depois de gravar dois EPs no biênio 2004 e 2005, lançou em dezembro de 2006, de forma independente, o seu disco de estréia intitulado Mamma Cadela em Busca da Verdade

    Projeto paralelo do guitarrista Fernando Coelho (também integrante do Seychelles), o Mamma Cadela faz um instrumental calcado nas correntes do jazz contemporâneo, da música experimental, do trip-hop e do rock psicodélico dos anos 60 e 70. Música de vanguarda e de conexões diversas. Nesse caldeirão sonoro, ascendências sônicas que remontam a Frank Zappa, Hermeto Pascoal, Kraftwerk e Pink Floyd. Outra influência declarada é a de Nino Rota, compositor italiano de trilhas sonoras, cujo talento está imortalizado em vários dos filmes de Federico Fellini, Luchino Visconti, Franco Zeffirelli e Francis Ford Coppola. 

    Apesar dos elementos do passado, a proposta da trupe é esculpir um novo formato para a música instrumental, cuja fórmula reúne arranjos de dinâmicas variáveis, que aliam harmonias complexas e melodias delicadas, alternando atmosferas sombrias e melancólicas com outras mais divertidas. Além de Coelho, completam o núcleo paulistano os músicos Rodrigo Fonseca (baixo, charango, teremin), Ladislau Kardos (bateria), Fabio Pinc (teclados e samplers) e Ismael Sedenski (pick-ups e sintetizadores). Neste debut, o quinteto ganha o reforço de um quarteto de cordas e instrumentos de sopro que incrementam as maquinações sonoras. 

    O disco foi produzido por Fabio Pinc (que também trabalha com as bandas Seychelles e Ludov) e o material foi quase todo gravado ao vivo, trazendo algumas participações especiais. Na bela “Meus Eletrodomésticos”, a cantora Wanderlea interpreta fragmentos de “Antonico”, música de Ismael Silva. Em “Lapin Noir”, Joana Cecatto (da banda paulistana Biônica) canta em francês um tema esquisito que conta a “trágica” história de um coelho preto chamado Antônio. Em ambos os casos, o recurso de vozes não é exatamente como vocais, mas em forma de declamações e narrativas -  como acontece também com a climática e sensorial “Da Espanha pro Brasil”, que traz um cântico soturno, em espanhol.

Mamma Style, a mascote do Mamma Cadela. Criação de Alex Senna

    Outros destaques são as faixas “Lição Marítima nº 3” (com interferências guitarrísticas que lembram as artimanhas de David Gilmour); “Abraço dos  Militares” (que inclui marcha marcial, discurso de general e climão tenso nas instrumentações); “Dentadura de Robô” (bem poderia se chamar “trilha sonora retro-futurista para filmes imaginários e sem sentido”); “Natunobilis” (um drink sonoro relaxante, consumido por um belo arranjo de cordas); “Jantar com Kubrick” (a mais experimental do disco, traz trompete, sinos, gritos e ruídos fantasmagóricos, além de participação especial do “Monstro do Abismo”, segundo o encarte); e a dobradinha “A Suiça me Deixou sem Suingue” (com uma arquitetura sonora instigante e inquietante) e “Bohemia sem Calcinha” (que encerra maliciosamente as festividades, incorporando trecho da música “A Semente” dos Seychelles, numa levada turbinada com metais na participação do saxofonista Guilherme Garbato do grupo Abimonistas). Mamma mia!

    Já vi uma apresentação dos caras no Museu da Imagem e do Som (SP) em meados de 2007 e o suporte musical é soberano.  Lembro que além da massa sonora sofisticada e criativa, o show era moldado por luzes e projeções de filmes em películas, culminando em um belo espetáculo audiovisual. Ao fundo do palco onde a banda se apresentava, eram projetados trechos do documentário Koyaanisqatsi de Francis Ford Coppola e do clássico Os Pássaros de Alfred Hitchcock, criando uma atmosfera envolvente e fascinante.

    Pra quem curte o som da banda e já está com o play Em Busca da Verdade desintegrado de tanto escutar, resta aguardar o lançamento do segundo disco da turma que, diz a lenda, deve estar estourando na praça ainda este ano. E algumas destas novas composições já foram apresentadas nos shows da trupe nos últimos três anos. As inéditas “Cookie Monster”, “Estive Onde?”, “O Travesseiro do Serial Killer”, “Pinga de Churumi” e “Lição Marítima n° 5”  são pistas que mostram que o Mamma Cadela segue firme a trilha sonora de música futura, de um mundo desconhecido e sobrenatural. Mamma Style!

Faixas: 01. Lição Marítima nº 3 / 02. Papa à Passarinho / 03. Meus Eletrodomésticos / 04. Abraço dos Militares / 05. Dentadura de Robô / 06. Lapin Noir / 07. Da Espanha pro Brasil / 08. Natu Nobilis / 09. Jantar com Kubrick / 10. A Suiça me deixou sem suingue / 11. Bohemia sem Calcinha 

Download: http://rapidshare.com/files/18285269/Mamma_Cadela_Em_Busca_da_Verdade.rar.html

MAMMA CADELA – LIÇÃO MARÍTIMA N° 3

MAMMA CADELA – PAPA À PASSARINHO

MAMMA CADELA – MEUS ELETRODOMÉSTICOS

MAMMA CADELA – ABRAÇO DOS MILITARES

MAMMA CADELA – ABRAÇO DOS MILITARES

MAMMA CADELA – JANTAR COM KUBRICK

MAMMA CADELA – BOHEMIA SEM CALCINHA

MAMMA CADELA – COOKIE MONSTER

MAMMA CADELA – ESTIVE ONDE?

MAMMA CADELA – O TRAVESSEIRO DO SERIAL KILLER

MAMMA CADELA – O TRAVESSEIRO DO SERIAL KILLER

MAMMA CADELA – PINGA DE CHURUMI

MAMMA CADELA – LIÇÃO MARÍTIMA Nº 5