Banda obscura e pouco conhecida do progressivo italiano, Semiramis lançou um só disco em 1973, para desgraça dos bolhas de plantão e aficionados pelos bons sons. Falo desgraça porque parece não haver mesmo qualquer outro registro do grupo (se alguém souber de outro, me avisa) e os fãs têm que se contentar com as 7 faixas do disco Dedicato a Frazz… material belíssimo e de qualidade excepcional!
Músicos jovens e de raro talento como Michelle Zarrillo, guitarrista e vocalista que, apesar de seus 16 anos à época, possuía uma maturidade técnica impressionante pra sua idade, impondo riffs calibrados e solos na medida certa. Seu irmão Maurizio Zarrillo é outro que detona, criando seqüências rítmicas cabulosas no piano e sintetizador. Completam o line-up Paolo Faenza (bateria, percussão e vibrafone), Marcello Reddavide (baixo) e Giampiero Artegiani (violões clássico e de 12 cordas e sintetizador), todos moleques na faixa dos 17/18 anos, todos mandando muito bem…
O que se ouve é o equilíbrio entre o peso e a leveza, arranjos dissolvidos em esquartejantes quebras de andamento, encaixes precisos de teclados e violões nas linhas harmônicas e intervenções maneiras de vibrafone nas melodias. Destaques para as faixas “La bottega del rigattiere”, “Luna Park”,“Dietro una porta di carta” e “Frazz”, com passagens rítmicas de tirar o fôlego. Uma dica é escutar várias vezes para se acostumar com a sonoridade e complexidade musicais inerentes à obra.
Destaque também para a arte gráfica de Gordon Faggetter, presente na capa e capa interna, ilustrando personagens sugeridos nas letras. Se não bastasse ser discoteca básica, tenho que confessar que sou um bolha de sorte: achei o vinil verde… beleza sinfônica, tão imponente quanto o hino do Palestra Itália… tutti buena gente!
Faixas: 1. La bottega del rigattiere / 2. Luna Park / 3. Uno zoo di vetro / 4. Per un strada affolata / 5. Dietro una porta di carta / 6. Frazz / 7. Clown
Estava agora mesmo escutando este Velvet Darkness de 1976, primeiro disco solo de Allan Holdsworth, guitarrista britânico de técnica invejável e estilo inovador. Considerado um dos responsáveis pela renovação da linguagem harmônica na guitarra, concebeu belos trabalhos em sua carreira solo e por onde passou deixou rastros de sua genialidade. Foi assim nos grupos Tempest, Soft Machine, Gong e UK ou ainda em trabalhos com músicos de primeira grandeza como Jean-Luc Ponty, Tony Williams e Bill Bruford, entre outros.
Rock progressivo, jazz-rock ou fusion… não importa: quando o assunto é originalidade, criatividade e técnica, Allan Holdsworth é membro cativo no rol dos mestres das seis cordas. Exímio solista e construtor de concepções harmônicas cabulosas, influenciou grandes feras do instrumento como Joe Satriani, Steve Vai, Eddie Van Halen e Yngwie Malmsteen… virtuosidade aqui, é a cura para todo mal.
Neste primeiro registro solo de 76, Allan Holdsworth tece seus solos de guitarra acompanhado por um trio talentoso e experiente: Alphonse Johnson (baixo), Alan Pasqua (piano) e Narada Michael Walden (bateria). O resultado é um trabalho bem acessível – leia-se aí, sem nenhuma punheta fusion dissonante estéril -, com espertas concepções harmônicas e melodias agradáveis de se escutar do início ao fim. Quer prova? Aperte o play ou coloque a agulha no vinil… boa viagem!
Difícil não se deixar envolver com as boas vindas de “Good Clean Filth” ou com a faixa-título, ambas trazendo fraseados individuais suingados e contagiantes. Há espaço para o lirismo e a beleza nas faixas “Floopy Hat”, “Kinder” e “Last May”, onde nota-se uma textura acústica brilhante e dedilhados que lembram maravilhas ao estilo “Sleep Dirty” de Frank Zappa. Técnica sem tédio e mergulho na corrente jazz-fusion nas faixas “Wish” e “Gattox”, com nítida influência de Jeff Beck e seu revolucionário disco Blow by Blow de 1975. Em “Karzie Key” Holdsworth manda bem até no violino, seu instrumento de iniciação na música nos tempos de adolescência.
Disco muito bom, levando-se em conta que o guitarrista não teve o tempo que julgava necessário para dar o acabamento final à gravação. Parece que o lançamento do disco não contou com o aval de Holdsworth, justamente por ter que entregá-lo às pressas para a gravadora, por força de um contrato. Tivesse a chance de lapidar melhor o trabalho, chegaria próximo à perfeição atingida em discos como “I.O.U.” (1980), “Metal Fatigue” (1985) ou “One of Kind” (1979) com Bill Bruford, Jeff Berlin e Dave Stewart. Mas isso é só a senha para futuras postagens…
Para terminar, Frank Zappa em 1978 definiu Allan Holdsworth em uma única frase: “O melhor guitarrista do universo”. Se foi Deus quem disse, então não dá pra discutir…
Dentro da linha de bandas obscuras e malditas, vale a pena conhecer este power-trio britânico que lançou este único disco homônimo em 1969, mesclando elementos do rock psicodélico, do progressivo e do hard rock na sua estrutura musical. Constituído em meados de 1967 e liderado pelo vocalista e guitarrista John Du Cann (Attack, Atomic Rooster e Hard Stuff), o Andromeda nessa época contava ainda com os préstimos do baixista Mick Hawksworth (Fuzzy Duck, Ten Years After) e do baterista Jack Collins. Em 1969, Collins saiu da banda e as baquetas passaram a ser pilotadas por Ian McLane.
Du Cann já havia desenvolvido trabalhos na linha de frente dos não menos desconhecidos e ignorados grupos Attack e Five Day Week Straw People – projeto que gerou um disco conceitual composto por Du Cann, com tendências psycho-sarcásticas. Alíás, o Five Day era constituído pelo front line original do Andromeda, o trio Du Cann, Hawksworth e Collins. Foi aí que o embrião do Andromeda começou a tomar forma. O resultado é esta pequena e rara obra-prima.
Mesmo tendo o vinil, lembro que fiquei maluco quando saiu o CD duplo em 2000 contendo todas as músicas do disco original e mais uma porrada de versões alternativas, sobras de estúdio, singles e material ao vivo – inclusive takes raros, resgatados do programa BBC’s Top Gear do lendário DJ inglês John Peel. O CD 1 engloba o período 69/70 (época da gravação do álbum) e traz a presença de Ian McLane nas baquetas, com exceção de duas faixas. Já o CD 2 traz material raro com gravações de 67/68, tendo o batera original Jack Collins nos bumbos, menos em três faixas. No total, 34 músicas pra satisfazer qualquer bolha garimpeiro que parte em busca do bootleg perdido.
Capa linda, embalando um som da pesada. Ecos daquilo que o Deep Purple fazia na época são audíveis em “Too Old”, “Keep Out Cos I’m Dying” ou nas suítes ‘Turns to Dust”, “Return to Sanity” e “When to Stop” (o trecho “Journey’s End” é de um tremendo bom gosto). Uma quebradeira de batera, solos precisos de Du Cann e um acompanhamento feroz do baixo. Mas nem tudo descamba pra pancadaria… há espaço para sutilezas como “The Day of the Change” e “I Can Stop the Song”. Escute “Now the Sun Shines” e tente segurar as lágrimas. Como se não bastasse, ainda tem várias inéditas (destaque para “Ode To the Sea”, “Lonely Streets” , “The Lodger” e “Dreamland”).
Quer um conselho bolha? Compre correndo esta belezinha ou baixe da Web o mais rápido possível. Los tímpanos embolorados agradecem.
O Andromeda em 1969: linhagem dos bons sons
Faixas:
CD 1 – 01.Too Old / 02.The Day Of The Change / 03.Now The Sun Shines / 04.Turns To Dust (Discovery-Sanctuary-Determination) / 05.Return To Sanity (Breakdown – Hope – Conclusion) / 06.The Reason / 07.I Can Stop The Song / 08.When To Stop (The Traveller – Turning Point – Journey’s End) / 09.Go Your Way / 10.Keep Out Cos I’m Dying / 11.The Garden Of Happiness / 12.Return To Exodus / 13.Journey’s End (reprise) / 14.Let’s All Watch The Sky Fall Down / 15.Darkness Of Here Room / 16.See Into The Stars
CD 2 – 01.The Day Of The Change / 02.The Reason / 03.Return To Sanity / 04.Keep Out Cos I’m Dying / 05.Search On / 06.Ode To The Sea / 07.Lonely Streets / 08.Sleep Like A Child / 09.I Was Left Behind / 10.I Just Wanna Live My Life / 11.The Lodger / 12.Dreamland / 13.Round House Blues (live) / 14.Walking On (live) / 15.I’m Searching (live) / 16.Acidus (live) / 17.All In You / 18.Step This Way
Mineirinho comendo pelas beiradas, dono do queijo, da bola e da corda que laçou toda uma leva de músicos da black music nacional nos anos 70 e nas décadas seguintes. Compositor, mestre na percussão e violão e dono de uma voz poderosa e marcante. Tropeçou no obscurantismo e no descaso da mídia por décadas e agora, aos poucos, vai sendo redescoberto pelo pessoal que curte a suingueira. Falo de Marku Ribas, expoente da mistura de ritmos brasileiros, jamaicanos e caribenhos, trazendo no sangue a ginga malandra do samba-rock, do balanço black e do jazz.
Na ativa e em plenos pulmões, este mineiro de Pirapora vem nos últimos tempos ganhando terreno e conquistando novos admiradores no Brasil e no exterior. Mesmo subestimado, seu prestigio e influência nas rodas de bamba só tem aumentado. Prova disso é o desenvolvimento de parcerias com diversos nomes da nova geração da música brasileira: Clube do Balanço, Ed Motta, Max de Castro, BID, Paula Lima, Curumin, Marcelo D2, entre outros.
Escutar Marku Ribas é mergulhar de cabeça na onda black da música nacional dos anos 70. E aí meu amigo, a lista dos bons sons é um prato bem servido: Jorge Ben, Tim Maia, Cassiano, Carlos Dafé, Trio Mocotó, Impacto 8, Raul de Souza, Black Rio, Dom Salvador e Abolição, Gerson King Combo… só coisa boa! Um antídoto perfeito pra cair na suingueira deslavada. Falando sobre a discografia do patrono do samba-rock, dois álbuns eu considero fundamentais na história da música brasileira: Underground de 1973 e Marku de 1976. Dissecando:
UNDERGROUND ( 1973 )
Underground de 73, é um clássico para quem entende da matéria. Com arranjos do maestro Erlon Chaves, traz pérolas musicais como a maravilhosa “5,30 Schoelcher”, num arranjo impecável e letra memorável: “… raios solares entram na minha mente, iluminando o coração / e meu espírito contente me mostra a direção do mar…” Se você conhece a letra, só falta agora jogar a moringa no chão e relaxar.
“N’ Biri N’ Biri é nada menos que brilhante adaptação para música do folclore africano. “Pacutiguibê Iaô“ injeta percussão e suingue nos poros, num provável hit em terreiro de Umbanda… saravá! “Matinic Moins” mostra influências de sua estada de 7 anos na Martinica, com a verve latina em ação e guitarrinha a la Santana no final. “Orange Lady” é samba-fruit-rock (sic) com caldo e bagaço pra lá de dançantes e letra que narra um barraco no salão de baile às 3 da matina. Pegou geral!
Mas o destaque é mesmo a praieira “Zamba Ben”, clássico absoluto e verdadeiro hino do samba-rock. Gravada na época da ditadura militar, quase foi vetada pela impiedosa censura da época. Marku compôs a música original sem letra, a fim de usar sua voz como um instrumento. Um dos censores encasquetou com aqueles dialetos indecifráveis e pediu uma letra pra música ser aprovada. Marku escreveu a letra na hora e a música enfim foi liberada. No final, um drible aqui, uma pedalada lá e a música acabou sendo gravada da maneira original mesmo. É o craque a serviço dos bons sons. A letra, belíssima por sinal, só seria resgatada em gravações futuras. Como é que é aquele trecho mesmo? Ah é…
*
Zambei demais / Que de manhã eu lá na praia acordei
Zambei demais / Que de manhã eu me encontrei
Deitado à sombra de um coqueiro / como quem espera a vida passar
Minha nega do meu lado / dizia: “Amor o mar tá gelado
E o sol tá bom pra queimar”…
*
Vou dar um chuá, pegar um bronze e já volto… que maravilha!!
Buenas, outro álbum fantástico e este Marku de 76, tão bom quanto o antecessor. Ribas manda ver com um time de grandes músicos, incluindo aí João Donato, Wilson das Neves, Luizão Maia, Chiquito Braga e Miucha, além de uma seção de metais que contava com Oberdan Magalhães, um dos mentores da lendária banda Black Rio. É outra acachapante mistura de diferentes estilos e ritmos musicais.
O disco abre com “Zi Zambi”, transbordando suingue até a medula, grudenta ao extremo e com uma levada rítmica contagiante.“Meu Samba Regue” é pioneira na fusão samba/reggae e traz el groove terrible conduzido por uma linha de baixo malandrérrima. “La pli Tombe” vem pontuada por ritmos caribenhos, numa adaptação de Ribas para música do folclore da Martinica. Tem a ginga do samba no pé no batuque descarado de “In Via Brasil”, com participação do conjunto Nosso Samba.
Nova leva de arranjos fantásticos em“Deixa Comigo” que diz que “na lua de julho quando o sol tá de rachar, eu quero ver vocêdançar”… Não tem jeito: siga o fluxo sonoro pela sombra e caia no groove. “Curumin” é das prediletas da casa e segue descarregando uma linha melódica de arrepiar. “Kazumbanda” fecha com chave de ouro em uma performance instrumental belíssima e interpretação vocal monstro de Ribas, que canta“eu vou dar o pira, vou embora…”Nada mais que a gíria dos velhos tempos na cadência do black power. Demais!
Lembro que achei esses vinis na loja do Carlinhos, a Disco 7, no centro de SP, por um precinho camarada. De quebra ainda levei o segundo do Trio Mocotó e outros grooves raros. Neste link, dá pra escutar algumas músicas desses dois discos de Marku Ribas…
Recentemente, saiu a coletânia Marku 72/75 reunindo canções destes dois discos. O título da compilação se refere aos anos em que os discos foram gravados. As bolachas chegaram nas lojas em 73 e 76. Marku também lançou um DVD comemorando 40 anos de carreira no começo do ano. Nessa longa tragetória, seu “Zamba Ben” foi regravado e sampleado por diversos artistas. Em 2001, no disco Swing & Samba-Rock, oClube do Balanço chamou Ribas pra cantar os versos deste clássico. Outra participação recente pode ser notada no disco Bambas & Biritas do músico Bid (ex-Funk Como Le Gusta) na faixa “Fora do horário comercial”…Deveras fantástica!
Enfim, esses dois discos e outros como Barrankeiro e Cavalo das Alegrias, por exemplo, são ítens obrigatórios pra quem quer conhecer o melhor da discografia deste grande músico mineiro. É Marku Ribas na cabeça! Eu vou dar o pira… até!
“O zamba veio da África / como a dignidade também
O zamba bem é verdade / é tudo o que você tem
Você tem o chão do salão / e o terral que você é
Reconheça e ame o teu país / pois ele é você… mulher!”
Marku Ribas
MARKU RIBAS – ZAMBA BEN
MARKU RIBAS – ZAMBA BEN
MARKU RIBAS E OS OPALAS – CURUMIM
LUANDA COZETTI E JORGE MACARRÃO – N’ BIRI N’ BIRI
TRACK LISTING
*Faixas Underground:
Zamba Ben – 5 :30 Schoelcher – O Adeus Segundo Maria – N’ biri N’ biri – Porto Seguro – Pacutiguibê Iaô – Madinina – Tira Teima – Matinic Moins – Orange Lady
*Faixas Maku:
Zi Bambi – Coisas de Minas – Meu Samba Regue – La Pli Tombé – Canaviá – Kaçuada – Deixa Comigo – Curumim – In Via Brasil – Kazumbanda
Discografia: • Flamingo - 1965
• Déo e Marco – 1967
• Batuki - 1970
• Underground - 1973
• Marku – 1976
• Barrankeiro – 1977
• Cavalo das Alegrias – 1979
• Mente e Coração – 1980
• 20 Anos – 1983
• Autóctone – 1991
• 18 sucessos de ouro- 1997
• Cor da Pele – 1997
• Coletânea 72/75 – 2002
Participações em outros discos:
• Hugues Aufray – 1970
• Frida Bocarra – 1970
• Liquid Rock – Hit Parade Martinica – 1972.
• Tim Maia e Convidados – 1977
• Emílio Santiago, Alcione e Jair Rodrigues – 1977
• Sebastião Tapajós – 1978
• Maurício Einhorn – 1979
• Chico Buarque – Ópera do Malandro – 1979
• Chico Buarque – Vida – 1980
• Mick Jagger – She’s the Boss - 1984
• Rolling Stones – Dirty Work – 1985
• Clube do Balanço – Swing & Samba-Rock – 2001
• Marcelo D2 – Hip-Hop-Rio – 2001
• Marcelo D2 – A procura da batida perfeita – 2003
• Alabê de Jerusalén –Peça em DVD de Altair Veloso – 2003