MILES DAVIS – AGHARTA (1975)

Junho 30, 2008

    Tá certo que escutar Miles Davis é o antídoto perfeito para combater o stress, relaxar e mergulhar profundamente nas ondas do jazz. Mas em algumas circunstâncias, os efeitos colaterais de tal audição podem ser devastadores. Um bom exemplo é este Agharta, composto explosivo fabricado no Japão, que traz o genial trompetista norte-americano em mais um momento de fúria jazzística. Atente para a possibilidade deste disco causar sérias dependências musicais e acelerar os batimentos cardíacos… Aí então meu camarada, o ataque sonoro rumo a outra dimensão é iminente.

    De sua fase elétrica de álbuns fantásticos – e falo de uma época iluminada, um estágio avançado, onde Miles Davis mostrava a sua genialidade promovendo seguidas obras-primas como In A Silent Way (1969), Bitches Brew (1969), A Tribute to Jack Johnson (1970), On the Corner (1972), Big Fun (1974) e Get Up With It (1974) -, não me recordo de explosão sônica tão visceral e alucinada como essa.

    Gravado em terras japonesas, no Osaka Festival Hall, na tarde de 1° de fevereiro de 1975, Agharta é o primeiro de dois álbuns gerados no mesmo dia – o outro é o concerto noturno registrado no disco Pangaea. Ambos fazem parte da trilogia iniciada com o disco Dark Magus (que mostra show realizado em 1974, em Nova Iorque). Três lps duplos muito bons, repletos de experimentações e improvisos, trazendo nos créditos quase a mesma formação. Mas o ápice demencial é mesmo este Agharta.

      Plugando um trompete envenenado a um pedal wah-wah, o Príncipe das Trevas assombra uma multidão, construindo texturas atmosféricas repletas de efeitos e ecos, irradiando ondas elétricas jazzísticas por todos os lados. E o baque é forte: uma música agressivamente funky, com plena liberdade para improvisos coletivos a partir de alguns temas preestabelecidos. Seguindo essas pegadas, uma feroz tropa de choque pronta para implodir o jazz: Sonny Fortune (sax / flauta), Michael Henderson (baixo), Al Foster (bateria), Mtume (conga / percussão), Pete Cosey (guitarra / sintetizador / percussão) e Reggie Lucas (guitarra). Sai de baixo!! 

     Disco duplo, cinco temas longos, sonoridade adrenalítica e caótica desprovida de qualquer tipo de harmonia. Começa denso e perturbador com os mais de 30 minutos de “Prelude” (partes I e II), em uma demonstração insana de free-jazz, com destaque para os solos selvagens de Davis, Fortune e Cosey. A performance de Cosey, por sinal, é um capítulo à parte: auxiliado por um conjunto de aparelhos de distorções eletrônicas, encarna Jimi Hendrix, solando de forma animalesca, chegando mesmo a fritar os dedos na guitarra. Em se tratando de jazz é nitroglicerina pura. 

     álbum segue ameaçando breve trégua em “Maiysha” – providencial para os excelentes trabalhos de flauta de Fortune e percussão de Mtume. Prossegue suando frio pelos andamentos nervosos de “Interlude”, onde “So What” (faixa do lendário álbum Kind of Blue, de 1959) serve de parâmetro para um novo arregaço de improvisos espetaculares. E acaba em completa falta de ar, lá no fim do túnel, com “Theme from Jack Johnson”, num compasso mais frenético e nervoso que o apresentado em outras versões. No mínimo, perturbador! É o final apoteótico de uma maratona desenfreada pelos improvisos do jazz, com o septeto injetando solos desesperados e enfurecidos, experimentações sonoras ensurdecedoras, rock, funk, groove, plutônio, urânio… outra bomba atômica em solo nipônico! 

     Era desta forma – com um novo bombardeio de jazz supersônico – que o conturbado e irrequieto trompetista resolvera responder aos seus detratores. Acusado de ser um traidor do estilo – um músico que denegriu o jazz ao fundi-lo ao acid rock, blues, funk e aos experimentalismos da música contemporânea -, Davis mostrava cada vez mais não se importar com a opinião dos conservadores de plantão. Agharta comprova isso: um digníssimo “will be fuck” para os críticos e um “viva” para os fãs, que compravam seus discos a rodo e lotavam seus shows. Consagração total!

    Após este registro, o trompetista ficaria cinco anos sem lançar discos ou fazer shows, se recuperando dos problemas de saúde relacionados ao seu intenso consumo de drogas e álcool. Só retornaria em 1981 com o lançamento do álbum The Man With The Horn, iniciando o último ciclo de sua trajetória genial como músico.

     Para encerrar, queria disponibilizar no blog alguns vídeos de Agharta, mas não achei nada no velho Tube. Segue portanto uma apresentação com formação similar, gravada na Austria, em 1973: Miles Davis, Reggie Lucas, Pete Cosey, Michael Henderson, Al Foster e Mtume em mais um flagra de experimentações e orgias jazzísticas. O saxofonista Dave Liebman (que participa do álbum Dark Magus) também está presente e ajuda a alimentar a complexa massa sonora comandada por Miles Davis, este autêntico camaleão do jazz. Demais! 

DOWNLOAD: http://www.badongo.com/file/2131488 

DAVIS / COSEY / LUCAS / LIEBMAN / HENDERSON / FOSTER / MTUME – PART 1

DAVIS / COSEY / LUCAS / LIEBMAN / HENDERSON / FOSTER / MTUME – PART 2


ROY BUCHANAN – ROY BUCHANAN (1972)

Junho 4, 2008

 

    Trafegando pelas vias do blues, ando gastando a agulha da pick-up nos lp’s de Roy Buchanan. Tido como “o melhor guitarrista desconhecido do mundo” e eleito pelas revistas “Guitar Player” e “Rolling Stone” como um dos 100 melhores guitarristas da história, este músico americano continua me impressionando a cada nova audição. Do fundo de minha coleção de discos, diria sem medo de errar: Buchanan foi um dos grandes heróis do blues em todos os tempos. Quem não conhece, não sabe o que está perdendo…   

 

    Figura fácil no circuito musical da época, Buchanan percorreu os Estados Unidos e o Canadá, tocando com vários músicos e grupos desconhecidos no final dos anos 50 e por toda a década 60. No início dos anos 70, gravou dois discos com o Snakestretchers, assumindo o papel de band-leader da trupe.

 

    Combinando estilo e técnica singulares a um feeling de arrepiar, acabou conquistando fãs famosos como John Lennon, Eric Clapton e Jeff Beck. Mick Jagger, inclusive, o convidou para ingressar nos Rolling Stones em substituição ao guitarista Brian Jones, demitido da banda em junho de 1969 (um mês depois, Jones foi encontrado morto, boiando na piscina de sua casa). Buchanan negou o pedido, preferindo a liberdade artística e a distância da fama. Assim era Buchanan…

 

    Em 1972, depois de ser homenageado com um documentário na tv, firmou contrato com a Polydor e lançou-se como artista solo, gravando pela companhia 5 discos memoráveis e pra lá de recomendados. Sua estréia na gravadora veio com um disco homônimo que contava com o entrosamento e a camaradagem dos parceiros da antiga banda: Ned Davis (bateria), Dick Heintze (piano/orgão), Teddy Irwin (guitarra rítmica), Chuck Tilley (vocal) e Pete Van Allen (baixo). Buchanan simplesmente abusa de sua Fender Telecaster, impondo uma combinação explosiva de blues, rock e r&b… divino maravilhoso!

 

    “Sweet Dreams”, “Cajun”, “John’s Blues” e “Pete’s Blue” são faixas instrumentais de arregaçar a alma. A veia country também está presente nas canções “I Am Lonesome Fugitive”, “Haunted House” e na versão do clássico  “Hey, Good Lookin”, de Hank Williams, todas interpretadas por Chuck Tilley. Mas é na faixa “The Messiah Will Come Again” (com vocal do próprio Buchanan) que dá para entender por que o descreviam como um guitarrista que fazia sua guitarra chorar… fantástico!

  

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ROY BUCHANAN – SWEET DREAMS

ROY BUCHANAN – THE MESSIAH WILL COME AGAIN

ROY BUCHANAN – HAUNTED HOUSE

JOHN PAUL KEITH & THE ONE FOUR FIVES – CAJUN


ROY BUCHANAN – SECOND ALBUM (1973)

Junho 4, 2008

 

    Se o primeiro é excelente, este Second Album então nem se fala. Gravado em 1973, trazia pequenas alterações no line-up do álbum anterior, como a entrada de Don Payne substituindo Pete Van Allen nas linhas de baixo e Jerry Mercer nas baquetas no lugar de Ned Davis (que só colabora na emotiva “She Once Lived Here”). Mais uma seleção de faixas instrumentais e solos sensacionais, comprovando quem é o mestre da Telecaster…

 

    “Filthy Teddy”, “I Won’t Tell You No Lies” (com belo trabalho de teclados de Dick Heintze) e “Tribute To Elmore James” são as provas definitivas que tocar com sentimento era uma de suas fortes qualidades. Outra boa pedida fica por conta da clássica “Treat Her Right”, de Roy Head, abrindo o lado B do vinil, numa versão fulminante para botar fogo nas festividades. 

 

    Mas os destaques ficam por conta das intensas “After Hours” e “Five String Blues”, com Buchanan injetando timbres agudos ensandecidos e descarregando aqueles efeitos característicos de sua companheira de 6 cordas. Uma dica é escutar estas duas faixas com a mão segurando o queixo… pirotecnia pura a serviço dos bons sons!

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ROY BUCHANAN – TRIBUTE TO ELMORE JAMES

JOHNNY CARWASH – I WON’T TELL YOU NO LIES


ROY BUCHANAN – THAT’S WHAT I AM HERE FOR (1974)

Junho 4, 2008

 

    Encerrando minha conexão auditiva em alguns de seus discos, destaco também seu terceiro trabalho solo, lançado em 1974. That’s What I Am Here For é um registro mais roqueiro e com uma pegada mais nervosa que os anteriores. Acompanhado por Dick Heintze (teclados), Billy Price (vocal), John Harrison (baixo) e Robbie Magruder (bateria), mostra um Buchanan na ponta dos cascos, mantendo suas características marcantes: riffs precisos, grandes agudos nos solos e muitos harmônicos.

 

    Curioso que ao contrário dos anteriores, este álbum traz apenas uma faixa instrumental (a bela “Nephesh”). De resto só sonzeira, solos raivosos e timbres berrantes extraídos de sua amiga Telecaster. Aumente o volume em “My Baby Says She’s Gonna Leave Me”, “Rodney’s Song” ou “That’s What I Am Here For” e mande seus auto-falantes para o inferno.

 

    Em “Roy’s Bluz” (única faixa com vocal de Buchanan) e “Please Don’t Turn Me Away” tudo parece se acalmar até que Buchanan intervém com nova saraivada de solos ensurdecedores e efeitos estratosféricos. Discaço que ainda traz versão de “Hey Joe”, dedicada a Jimi Hendrix e tocada com estilo peculiar, criando texturas sonoras de rara beleza… é a assinatura Buchanan de qualidade.

 

    Além destes três discos obrigatórios, Buchanan gravou outros dois pela Polydor e mais três pela Atlantic Records antes de dar uma trégua de 4 anos na carreira, reivindicando maior liberdade em suas criações. Em 1985, assinou com a Alligator Records, alcançando a alforria que pleiteava há anos e gravou mais uma leva de grandes discos pela companhia. “When a Guitar Play The Blues” de 1985 é altamente recomendado. Qualquer hora falo mais deste disco.

 

    Reza a lenda que Jeff Beck parou de tocar com a Telecaster depois de ouvir Roy Buchanan. Se é verdade ou não, o certo é que sua admiração por Buchanan era notória, tanto que “Cause We’ve Ended As Lovers” do revolucionário álbum Blow By Blow é dedicada a ele. Nesta música, Beck bate continência ao guitarrista americano usando uma técnica criada por ele: dar um bend enquanto o volume da guitarra esta baixo e ir aumentando depois. Mestre!

 

     Sua morte sinistra ainda é um poço de mistério. Depois de ser preso embriagado após uma discussão familiar, foi encontrado morto em sua cela na manhã seguinte, enforcado em sua própria camisa. Apesar dos fatos evidenciarem suicídio, muitos ainda não acreditam nessa tese. Era 14 de agosto de 1988 e, aos 48 anos de idade, acabava tragicamente a trajetória do “melhor guitarrista desconhecido da história”.

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ROY BUCHANAN – HEY JOE

ROY BUCHANAN – ROY’S BLUZ (PARTE 1)

ROY BUCHANAN – ROY’S BLUZ (PARTE 2)

ROY BUCHANAN – PLEASE DON’T TURN ME AWAY