LITTLE BEAVER – JOEY (1972)

Novembro 28, 2008

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    Cantor, compositor e guitarrista americano de r&b, soul e funk, Little Bear nasceu Willie Hale em Forrest City, Arkansas, no dia 15 de agosto de 1945. Ainda criança, por conta de seus dentes grandes e ressaídos, ganhou de um saxofonista local o apelido de “Pequeno Castor” – alcunha incorporada anos depois ao seu nome artístico. Ainda na infância, se interessou por blues e guitarra, escutando as composições de Blind Roosevelt, Bobby “Blue” Bland e B.B. King.

 

    No início dos anos 60, se mudou para a Flórida e lá desenvolveu suas aptidões no canto e na guitarra. Em 1969, já como músico profissional, foi contratado para atuar nos estúdios da TK Records em Miami. A gravadora (extinta em 1981) reunia vários selos e era capitaneada pelo executivo Henry Stone. Figura tarimbada da cena local, Stone foi o responsável por difundir o Miami Sound e o Souther Soul, além de ter gravado alguns dos primeiros trabalhos de Ray Charles e colaborado com James Brown durante muitos anos.

 

    Descolado, Beaver fazia parte de uma equipe de músicos que contava também com Harry Casey, futuro vocalista e líder da KC and The Sunshine Band. Nesse período, participou de diversas sessões em estúdio, gravando ao lado de nomes como Latimore, Betty Wright, Timmy Thomas, George e Gwen McCrae, entre outros. Entre 1972 e 1976, já com um estilo musical definido e com o aval de Henry Stone, gravou quatro discos pela companhia através do selo Cat.

 

    Neste instante, estou escutando os seus dois primeiros álbuns como artista solo: os lps Joey (72) e Black Rhapsody (74). Dois registros muito bons que mostram uma mistura altamente suingante de r&b, soul e funk. O play de 1972 é a sua estréia individual, trazendo o soul na medida black, como mostram as faixas “That’s How It Is” (com direito a arranjo de cordas para embalar a alma) e “Katie Pearl”, contendo mais de 11 minutos de puro feeling.

 

    Outros temas são mais voltados ao blues (“Give A Helping Hand”, “I’m Losin The Feelin” e “What The Blues Is”), indicando que B. B. King é seguramente uma de suas influências. O lamento da guitarra de Little Beaver pode ser notado na ótima versão de “Two Steps From The Blues”, que já conhecia por intermédio de Bobby “Blue” Bland. “Joey”, faixa que leva o nome do disco, é a minha predileta, tendo alcançado na época a 48ª posição nas paradas de r&b americanas… Também pudera: o grude sonoro é substancialmente pegajoso!

 

    Produzido por Steve Alaimo é uma pérola obscura da indústria fonográfica e item imprescindível para os amantes da música negra americana. No geral, um belo disco trazendo composições inspiradíssimas, aliadas a frases de guitarra impecáveis e ótimo trabalho vocal de Beaver.

 

Faixas: 01. Joey / 02. Give A Helping Hand / 03. I’m Losin’ The Feelin / 04. What The Blues Is / 05. That’s How It Is / 06. Katie Pearl / 07. Two Steps From The Blues

 

Link p/ breve audição: http://lavamus.com/Album/2373657/Little_Beaver/Joey__1972_/mp3/

LITTLE BEAVER – JOEY


LITTLE BEAVER – BLACK RHAPSODY (1974)

Novembro 28, 2008

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    Já o álbum Black Rhapsody de 1974 é totalmente instrumental e apresenta uma pegada mais funky que o registro anterior, com levadas invariavelmente grooveadas e cheias de suingue. Há composições próprias matadoras como “Blues For Mama” (aqui ele incorpora B.B. King sem dó, nem piedade), “Hit Me With Funky Music” (com guitarrinha estilosa despejando efeitos wah wah) e “A Tribute To Wes” (uma homenagem ao guitarrista de jazz Wes Montgomery, outra forte influência).  

 

    Rola ainda uma releitura maneiríssima de “Summertime” de Heywood & Gershwin, num instrumental fascinante que já valeria o disco. O lado B do vinil é ocupado por três clássicos da black music (“Just My Imagination”, “Never Can Say Goodbye” e “Let’s Stay Together”) em versões personalíssimas, tocadas com alma e devoção pelo músico americano. Produzido por Richard Finch é um álbum propício para os apreciadores da música instrumental com sotaque groove… Rare groove!!

 

    Os outros dois registros de Little Beaver pelo selo Cat são Party Down (cuja faixa título é seu maior hit) e When Was the Last Time, lançados em 1974 e 1976, respectivamente. Ambos esbanjam qualidade nos quesitos feeling e técnica e são tão bons quanto os dois primeiros. Quando conseguir as cópias em vinil – em meio às comemorações pelo feito – prestarei uma homenagem postando suas respectivas resenhas aqui no blog. Afinal, não é sempre que se acha essas belezinhas dando sopa por aí.

 

    Pesquisando, fiquei sabendo da existência de outro disco de Beaver intitulado Love & Affection – From The House Of Correction, lançado em 1997 pelo selo Essential. Nunca escutei esse play, mas se achá-lo em algum sebo, compro no escuro sem pestanejar. Recentemente, Beaver foi recrutado por Betty Wright para participar das gravações dos álbuns The Soul Sessions (2003) e Mind, Body & Soul (2004) da cantora inglesa de soul e r&b Joss Stone. É o “Pequeno Castor” em plena atividade.

 

    Buenas, a dica “black bolha” da semana está dada. De uma coisa estou certo: estas bolachinhas de marca Little Beaver vão ficar na estante junto aos discos de Grant Green, Melvin Sparks, Milton Wright, Dennis Coffey, Shuggie Otis e outras maravilhas do gênero. Salve o santo groove!! 

 

Faixas: 01. A Tribute To Wes / 02. Blues For Mama  / 03. Hit Me With Funky Music / 04. Loosen Up / 05. Summertime / 06. Just My Imagination / 07. Never Can Say Goodbye / 08. Let’s Stay Together

 

 

Link p/ breve audição:  

http://lavamus.com/Album/2373656/Little_Beaver/Black_Rhapsody__1974_/download-mp3/  

DENNIS COFFEY – JUST MY IMAGINATION

ISAAC HAYES – NEVER CAN SAY GOODBYE

 

AL GREEN AND FRIENDS – LET’S STAY TOGETHER


KINKS – ARTHUR (OR THE DECLINE AND FALL OF THE BRITISH EMPIRE) (1969)

Novembro 19, 2008

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    Um dos maiores representantes do rock britânico, os Kinks também foram protagonistas da chamada Invasão Britânica – um marco na história do rock, cujo estopim foi o desembarque dos Beatles no aeroporto de Nova Iorque, em fevereiro de 1964. O fenômeno foi responsável pela popularização de bandas inglesas na terra do Tio Sam, lançando no mercado americano não só os Beatles, como os Rolling Stones, The Who, The Animals, Yardbirds, Small Faces… e claro, os Kinks, uma das prediletas da casa. 

    Nascido das cinzas do Ravens em 1963, o grupo Kinks era composto em sua formação original pelos irmãos Ray Davies – vocalista, guitarrista, principal compositor e também a alma da banda – e Dave Davies (guitarra e vocais) e ainda Pete Quaife (baixo e vocais) e Mick Avory (bateria). Nem sempre tão lembrados como os Fab Four ou os Stones, mas tão importantes e influentes quanto, tocaram do rock and roll ao pop, passando pelo rhythm and blues, psicodelismo, country e folk. Com o single “You Really Got Me” em 1964, alcançaram o primeiro lugar na parada britânica, lançando as bases do hard rock.

 

    O som dos Kinks pode ser pressentido principalmente através dos acordes potentes e distorcidos da guitarra de Dave e claro, nas sensacionais composições de humor refinado interpretadas por Ray, um autêntico cronista do modo de vida britânico e simplesmente um dos melhores letristas da história do rock. Legítimos “bad boys”, desenvolveram uma carreira cercada de polêmicas, envolvendo conflitos internos, agressões mútuas entre os músicos e condutas deploráveis em algumas turnês.

 

    Nos Estados Unidos, após performances viscerais na tour de 1965, foram proibidos de pisar em solo americano até meados de 1969. Os motivos nunca foram revelados, mas o comportamento selvagem nos palcos, as desavenças com os promotores locais por causa dos cachês, shows inacabados ou cancelados e as confusões e brigas envolvendo os integrantes são alguns dos fatores que certamente contribuiram para que o veto ocorresse. A “doce” relação entre os irmãos Davies foi definida pelos próprios na música “Hatred (A Duet)”, do disco Phobia de 1993: “O ódio é a única coisa que nos une”.  

 

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    Com uma carreira sólida que se estendeu até 1996, gravaram mais de 30 álbuns, alguns indispensáveis como a estréia homônima (64), Kinks-Size (65), The Kinks Kontroversy (65), Face To Face (66), Something Else By The Kinks (67), The Village Green Preservation Society (68), Lola Versus Powerman and the Money-Go-Round – Part One (70) ou Muswell Hillbillies (71), só pra citar alguns. O disco que escuto neste momento é sem dúvidas um dos meus favoritos: Arthur (Or The Decline And Fall Of The British Empire).

 

    Lançado em 1969, Arthur era a trilha sonora de um projeto da TV Britânica que acabou não indo adiante, no qual Ray Davies colaborava com o dramaturgo e roteirista Julian Mitchell. Um álbum menosprezado pela crítica da época e atropelado meses depois pela ópera rock Tommy do The Who. Considerado ultrapassado e recebido de forma gélida pelos súditos da coroa, o long-play passou longe das paradas de sucesso e vendeu pouco, tornando-se um fracasso comercial do selo Pye. Algo que não dá para entender, já que o registro é simplesmente maravilhoso. Arthur marca também a estréia do baixista John Dalton (ex- Mark Four) como membro fixo, substituindo Pete Quaife, que preferiu respirar novos ares, montando a sua própria banda, o Mapleoak.

 

    Obra conceitual retratando o declínio e a queda do Império Britânico pós Segunda Guerra Mundial, numa crônica debochada e miserável de Mr. Ray Davies. Um almanaque sonoro contendo uma coleção de críticas sociais e políticas das mais irônicas ao modo de vida britânico, em meio à reconstrução nacional do pós-guerra. O que se ouve são verdadeiros hinos detonando as guerras, o imperialismo, a monarquia reinante e o establishment inglês. Letras sarcásticas disparando contra a pequena burguesia, a decadência moral e econômica, o panorama desalentador da classe operária, o incógnito mercado de trabalho em outro país, lavagem cerebral e repressão institucional, vitórias e derrotas, sonhos e desilusões, o glorioso e o banal.

 

    Faixas altamente pegajosas, embaladas por levadas empolgantes, numa sucessão de melodias e composições insuperáveis. Belos arranjos vocais, riffs memoráveis, orquestrações, naipe de metais e seção rítmica made Távola Redonda, com o quarteto mostrando porque era a mais inglesa das bandas inglesas. O que dizer de maravilhas como “Victoria”, “Yes Sir, No Sir”, “Some Mother’s Son”, “Drivin”, “Brainwashed”, “Austrália”… e eu nem cheguei no lado B do vinil. Não preciso falar mais nada… escutem e tirem as suas conclusões! Um chiclete sonoro… simples assim!!

 

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    Obra-prima à parte, o que me motivou a postar esta resenha foi a confirmação, no último dia 5, de que a banda está voltando à ativa após um recesso de 12 anos. O anúncio foi dado à BBC de Londres por ninguém menos que Ray Davies, que afirmou que um álbum de inéditas já vem sendo esboçado, possivelmente para ser lançado em 2009.

 

    Esse retorno, por sinal, vem sendo cogitado há alguns anos, mas foi adiado por conta do quadro de saúde dos irmãos Davies. Em 2004, enquanto Dave sofria um derrame cerebral, Ray era alvejado com um tiro na perna, após uma perseguição a assaltantes. Reestabelecidos, parece que agora o negócio é pra valer. Não foram divulgadas datas de lançamentos ou shows, mas uma coisa é certa: o retorno aos palcos será com a formação clássica. Fiquei na espectativa!

 

    Por enquanto, resta aguardar novas informações sobre a volta desta banda fantástica e escutar a versão vitaminada de Arthur lançada em 1998, com várias faixas bônus e que agora disponibilizo para download aqui no blog. Discoteca básica!  

 
Faixas: 01. Victoria / 02. Yes Sir, No Sir / 03. Some Mother’s Son / 04. Drivin’/ 05. Brainwashed / 06. Australia / 07. Shangri-La / 08. Mr. Churchill Says / 09. She’s Bought a Hat Like Princess Marina / 10. Young and Innocent Days / 11. Nothing to Say / 12. Arthur / Bônus: 13. Plastic Man (mono single version) / 14. King Kong (mono single version) / 15. Drivin’ (mono single version) / 16. Mindless Child Of Motherhood (mono single version) / 17. This Man He Weeps Tonight (mono single version) / 18. Plastic Man (unreleased stereo version) / 19. Mindless Child Of Motherhood (unreleased stereo version) / 20. This Man He Weeps Tonight (unreleased stereo version) / 21. She’s Bought A Hat Like Princess Marina (unreleased mono version) / 22. Mr. Shoemaker’s Daughter (bonus) 
 
 

 ou

Download (sem bônus):  http://www.mediafire.com/?yzyz5zozllj  

Download (sem bônus):  http://www.mediafire.com/?w2wfmn2qk0w  

KINKS – VICTORIA 

     

KINKS – YES SIR, NO SIR

KINKS – SOME MOTHER’S SON

KINKS – DRIVIN’

KINKS – BRAINWASHED

KINKS - AUSTRALIA

RAY DAVIES – SHANGRI-LA

KINKS – MR. CHURCHILL SAYS

KINKS – SHE’ S BOUGHT A HAT LIKE PRINCESS MARINA 

KINKS – NOTHING TO SAY

KINKS – ARTHUR