
De uma nova safra de jovens músicos que aliam a sonoridade e a sofisticação da MPB ao experimentalismo e a modernidade da música eletrônica, Fabio Góes desponta no horizonte como uma das gratas revelações na música brasileira em 2007, se é que pode ser assim considerado…
Veterano na cena independente paulistana, foi integrante da banda de rock Paumandado (com único disco homônimo lançado em 2003) e na última década atuou como produtor musical em trilhas cinematográficas como “Cidade de Deus” (2001) de Walter Salles e “Abril Despedaçado” (2002) de Fernando Meirelles e Kátia Lund, entre outras. Cantor, multiinstrumentista e compositor, passou os últimos cinco anos maquinando sua estréia solo, lapidando letras e desenvolvendo arranjos, num trabalho detalhado, intimista e que veio amadurecendo desde 2001… O resultado é o melhor disco de MPB que escutei este ano.
Sol no Escuro é de uma inspiração poética e melódica de assombrar. Faixas repletas de climatizações e ricas camadas sonoras, cadenciadas por diálogos entre piano e violão, encorporados por instrumentos como viola, violinos, violoncelo, bateria, guitarra, baixo, metais e percussão. Um caldo sonoro onde a MPB, o rock e a psicodelia estão presentes, bem como o jazz, o folk e o soul. Levadas pra lá de introspectivas e melancólicas; arranjos delicados, embalados pela voz tranqüila de Góes que nos remete ao pessoal do Clube da Esquina ou a uma sonoridade que lembra o Guilherme Arantes dos anos 70.

Letras que descrevem uma angústia latente como na faixa-título (“Eu ouso apagar o sol / colocá-lo num escuro tão profundo / que até o colorido mais raro / se despede de mim como um raio / e eu querendo azul”) ou em “Automático” (“Se nesse mundo, nessa sala, nessa rua, nessa casa / alguém precisa de mim / eu sempre acho que não”). Trupes reflexivas como na balada soturna “Sem Mentira” (“Eu já fingi ser muito melhor / eu já aprendi ser pior / mas sem mentira”) ou na funkeada “Mundo Acumulado” (“Tendo tudo planejado / dando tudo meio errado / bebendo o que sobra de alegria na noite / depois de outro dia / a fase ruim passa / a fase boa passa também / só sobra quem é quem / ninguém, ninguém é de ninguém”), uma das minhas preferidas!
“Estatística” é malemolência pura, com arranjos de cordas irradiantes e belo solo de sax numa pegada eletrônica vigorosa. Tem participação da cantora paulista Céu - legítima representante dessa leva de novos nomes da MPB – que nos brinda com sua doce voz no jazzinho “Sun of your eyes”. Acordes em tom menor prosseguem com a balada de violão “Mel” onde o clima acústico predomina. Belas composições não faltam como na metáfora do dia a dia sugerida na bela “Surfista” (“nasci pra ser surfista / do que eu quiser / do que eu puder / do que eu tiver porque”) ou na intimista “Lembranças” (“agora eu vou me esquecer mais / agora eu vou me confundir mais / agora eu vou me cuidar mais / quem sabe o tal dia ainda vem”) que chega a emocionar.
O climão melancólico só desaparece na última faixa com a bem humorada “Salmão” (“meu salmãozão / gosto de carne crua, só quando a carne é sua / meu sashimi, sashimizão”). Pronto, faltava quebrar o gelo, abrir a janela e respirar o ar puro de um novo dia… Deixa eu me espreguiçar que, como diz a letra de “Sereno” (“Chora e a noite abrirá um escuro imenso / pro sol entrar e nascer / pro dia chegar e atravessar ileso até o luar / o choro da noite é só sereno”), vai começar tudo de novo…
Faixas: 01. Sol no Escuro / 02. Sem Mentira / 03. Automático / 04. Mundo Acumulado / 05. Estatística / 06. Sereno / 07. Sun of Your Eyes / 08. Mel / 09. Surfista / 10. Lembranças / 11. Salmão
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FABIO GÓES – SEM MENTIRA
FABIO GÓES – MUNDO ACUMULADO
FABIO GÓES – MUNDO ACUMULADO
FABIO GÓES – SERENO
FABIO GÓES – SUN OF YOUR EYES
FABIO GÓES – SESC 2007 (PROMO)
Publicado por sinistersaladmusikal