KASHMERE STAGE BAND – TEXAS THUNDER SOUL: 1968-1974 (2006)

 

     Para apreciadores da black music que se acabam no instrumental sofisticado de combos como Jb’s, Mandrill, War, Soul Seven ou Nite-Liters, o caminho da perdição segue nesta direção: Kashmere Stage Band, uma big band negróide que conduzia um jazz-funk poderoso, sobrecarregado de instrumentos de sopro e com o groove pesando uma tonelada. Para entender a saga desta cultuada banda de colégio que praticamente se tornou profissional, é preciso reportar ao início dos anos 60, nos Estados Unidos, mais precisamente ao extremo norte da cidade de Houston, no Texas.

 

     É ali o berço da Kashmere High School, célebre escola secundarista norte-americana e uma das tantas que dispõe do tradicional ensino musical em sua grade curricular. Localizada no gueto Kashmere Gardens e freqüentada predominantemente por alunos negros e de baixa condição social, se notabilizou em fomentar o talento de seus pupilos para que pudessem seguir carreira nas asas da música. Meta que por sinal, seguia uma disciplina rígida, incluindo participações da banda do colégio em acirrados campeonatos musicais. Essas bandas escolares levavam o nome de “stage bands” e as disputas eram chamadas de “batalhas”. Uma prática repleta de rivalidade que se tornou freqüente à partir do início dos anos 60 e se estendeu até metade dos anos 80.

 

     Mas não era só a musicalidade de seus prodígios alunos que diferenciava a Kashemere High School das outras agremiações. Seu principal trunfo estava nas orquestrações do educador musical Conrad O. Johnson - vulgo “Prof” para os seus séquitos. Profundo conhecedor do jazz e das ramificações da música negra, Johnson era um mestre exigente que comandava a mão de ferro o aprendizado musical de seus pupilos. 

 

     Entre seus artifícios, o desenvolvimento de arranjos pra lá de elaborados e a inclusão de solos virtuosos nas instrumentações, suficientes para desbancar a concorrência que não chegava nem perto dessa eficácia. O resultado é que durante os anos que esteve à frente da instituição, Johnson ganhou com o seu coletivo de alunos, nada menos que 42 das 46 “batalhas” disputadas entre 1969 e 1977. Não tinha pra ninguém…  

 

Conrad O. Johnson

 

     Apesar do amadorismo inicial, o objetivo de Johnson era transformar a Kashmere Stage Band em uma banda profissional e o próximo passo nesse sentido, começava a ser maquinado. Dono do selo Kram Records, Johnson passou a gravar discos com a sua trupe e não demorou muito para criar um culto em torno do nome da banda.

 

     Ao todo, foram registrados oficialmente 8 álbuns entre 1968 e 1978, a saber: Our Thing (69), Bumper-To-Bumper Soul (69/70), Thunder Soul (70/71), Zero Point (71/72), Kashemere Live ‘73 (73), Plays Originals (74), Out Of Gás – But Still Burning (74) e Expo ’75 – Concert Tour Japan/Okinawa (75), todos poderosamente fantásticos… e raros, já que a tiragem de cada disco não passava das mil cópias e a distribuição era praticamente amadora. Hoje existem as reedições, mas as edições originais alcançam a média de 500 dólares cada.

 

     Este disco que estou disponibilizando é uma coletânea chamada Texas Thunder Soul 1968-1974 lançada em 2006, contendo uma seleção de faixas explosivas, takes alternativos e músicas inéditas, além de um disco bônus gravado ao vivo e que nunca havia sido lançado. Não tem música ruim… Versões instigantes e energéticas para clássicos como “Ain’t No Sunshine” de Bill Withers, “Take Five” de Paul Desmond, “Scorpio” de Dennis Coffey, “Thank You (Falettinme Be Mice Elf Agin)” de Sly And Family Stone, “Super Bad” de James Brown, “Do Your Thing” e “Shaft” de Isaac Hayes, além de outras maravilhas como All Praises”, “Headwiggle”, Thunder Soul”, “Burning Spear”, “Boss City” e “Zero Point”.

 

     Uma verdadeira orquestra black power fazendo uma combinação jazz/soul/funk de responsa, mostrando muita energia e vitalidade. Arranjos sensacionais, ora sincronizados, ora repletos de duelos e improvisos, combinando solos de metais virtuosos, linhas de baixo bem desenhadas, pianinho e órgão na medida black, instrumentos de percussão calibrados, uma bateria marcante que dava o beat característico do funk, além de solos de guitarras que quando surgem, mostram garras afiadas. Um groove pesado com uma qualidade sonora que transcedeu o som feito por outras bandas colegiais e até mesmo por bandas profissionais, levando a trupe a excursionar não só pelos Estados Unidos, como também por toda a Europa e Japão. 

 

O combo Kashmere Stage Band 

 

     Depois da saída de Johnson da escola no final dos anos 70, a banda de colégio mais funk da história encerrou suas atividades e poucos de seus integrantes seguiram uma carreira de destaque no circuito musical. Em fevereiro deste ano, após um recesso de 30 anos, os membros da Kashmere Stage Band se reuniram para um concerto no auditório da escola, com o intuito de prestar uma justa homenagem ao seu grande líder e fundador, Conrad O. Johnson. A apresentação (com a presença do mestre) foi filmada e vai virar um documentário dirigido por Mark Landsman. 

 

     E como o destino vive pregando suas peças, dois dias depois deste histórico acontecimento, a morte carregou Johnson, aos 92 anos de idade. Palmas para o mestre que deixa seu legado para futuras gerações e que agora fará regências em companhia celestial.

 

*Músicos: Ricky Adams (saxofone), Arthur Armstrong (saxofone), Johnny Brown (saxofone), Geraldine Calhoun (baixo), Andrei Carriere (guitarra), Paul Chevalier (guitarra), James Cleveland (trombone), Dorothy Compton (percussão), Lionel Cormier (saxofone), Gerald Curvey (bateria), Patricia Davis (vocal), Ronnie Davis (trompete), Michael Dogan (baixo), Timothy Dunham (saxofone), Lawrence Foster (trombone), Samuel Frazier (trompete, tamborim), Grady Gaines (saxofone), Roy Garcia (guitarra), Craig Green (baixo, bateria), Morris ‘Sonny’ Hall (congas), Dwight Harris (trombone), Ray Harris (bateria), James “Ham” Jackson (saxofone), Leo Jackson (trompete), Michael “Mike Dee” Johnson (trompete), Audrey Jones (trompete), Jesse Jones, Jr. (saxofone), Samuel Jones (trombone), Sheila Jordan (vocal), Hilton Joseph (saxofone), Johnny Lewis (bateria), Henry Marks (bateria), Thaddeus McGowen (saxofone), Bruce Middleton (flauta,saxofone), George Miller (vocal, saxofone), Diane Moore (french horn), Harold Morris (saxofone), Cloyce Muckelroy (trompete), Alva Nelson (órgão, piano elétrico, saxofone), Glennie Odoms (saxofone), Larry Phillips (saxofone), Shirley Ploucha (french horn), Leon Polk (trompete), Johnny Reason (guitarra), Sherman Robertson (guitarra, pandeiro), Earl Spiller (guitarra), Byron Starling (trombone), Roy Taylor (saxofone), John C. Thomas (trompete), Wilmon Toran (saxofone), Clyde Walker (vocal, saxofone), Jimmie “J.J.” Walker (trombone), Bruce White (saxofone), Elray Wiseman (trompete), Byron Wooten (trompete), Henry Robinson (bateria), Naomi James (piano), Linda Wiseman (percussão), Elmer Glover (bongos) e Katherine Lambert (percussão). 

 

DOWNLOAD: *Retirado por motivos de força maior, se é que vocês me entendem… Mas baixar pra quê? Este é um blog de colecionador… Comprem logo essa belezinha que tá tudo certo (risos).

 

KASHMERE STAGE BAND – SUNNY / KASHMERE

 

 

KASHMERE STAGE BAND – THANK YOU

 

 

KASHMERE STAGE BAND – LOST LOVE

 

 

KASHMERE STAGE BAND – DO YOUR THING

KASHMERE STAGE BAND – SCORPIO

DENNIS COFFEY – SCORPIO

JAMES BROWN – SUPER BAD

SLY & THE FAMILY STONE – THANK YOU (FALETTINME BE MICE ELF AGIN)

ISAAC HAYES – SHAFT

ISAAC HAYES – DO YOUR THING

BILL WITHERS – AIN’T NO SUNSHINE

PAUL DESMOND & DAVE BRUBECK – TAKE FIVE

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8 respostas a KASHMERE STAGE BAND – TEXAS THUNDER SOUL: 1968-1974 (2006)

  1. Roberto diz:

    Pelo que vi nos videos deve ser um som de primeira. Mas cadê o link para fazer o download?

  2. sinistersaladmusikal diz:

    Roberto, a Kashmere Stage Band era uma fábrica reprodutora de grooves. Banda black excelente! Quanto ao link, conversei com o administrador do WordPress e para evitar “pressões externas”, resolvi tirá-lo do ar. Mas a vida segue. Como diz um amigo, vamos em frente… Abraço!

  3. Roberto diz:

    Se a banda é desconhecida e mais ainda difícil achar os discos, qual problema em fazer download? quem proibiu tem mentalidade de jirico kkkkkk

  4. Almir Scarface70 diz:

    Dukaralho!!! KSB é Funk pra quebrar todas as baterias. Aí maluko coisa de loko….. Falow!!!

  5. Pedro Henrique diz:

    peguei este box, Marcão. Coisa de louco heim!!!

  6. sinistersaladmusikal diz:

    E aí Pedrão! Tudo certo, brother?
    Eu também descolei o Texas Tunder Soul recentemente, acho que no final do ano passado. Eu nem ligo muito para as coletâneas, mas encontrar esta belezinha dando sopa num sebo aqui de São Paulo foi de uma felicidade tamanha. Lembro que nesse mesmo dia – um dia de falência pura, diga-se – topei ainda com o play But Still Burning da banda, e claro, também o levei pra casa sem pestanejar.
    E meu amigo, falando em falências, tinha dado um tempo com elas, mas isso só durou até o último sábado. Desse jeito, com essas falências gigantescas, acho que nunca vou conseguir publicar no Sinister todos los discos da minha coleção. Assim não dá! Castiga!
    Abração

  7. Pedro Henrique diz:

    Eu também não curto não, mas esta é uma coletânea muito foda, rs. Sem contar as versões ao vivo né, e o dvd. Então, estou falindo tb, peguei vários últimos dias…Tedeschi Trucks Band, N`diaga M`baye, Tonny Allen, Vários Zappa`s, Portishead…alguns aí. Não tô na mesma proporção de falência sua, mas to a caminho, rs….
    Falando nisto Marcão, o que me indica de Afrobeat e Highlife, além dos chavões já?
    Grande abraço!

  8. sinistersaladmusikal diz:

    Los discos da KSB peguei só LPs usados, porém zerados, mas sem o DVD… pelo menos sairam por um preço bem camarada, hehe. Do Tedeschi Trucks Band comprei o Revelator, que na minha opinião foi um dos melhores lançamentos de 2010. Nessa última leva, descolei uma porrada de discos de jazz (muitos com prensagem japonesa), alguns de black music, outros de bandas mais recentes (como White Stripes, Queens of the Stone Age e Radiohead), discos variados de rock, incluindo aí muitas raridades obscuras… o mais incrível foi encontrar o Through a Window do Hard Meat original, lacrado e por 100 reais. Me senti o bolha mais felizardo do mundo. Demais!
    De afrobeat e highlife, tirando famigerados como Fela Kuti, Tony Allen, Manu Dibango ou Hugh Masekela, vale a pena escutar los discos do Assagai, Geraldo Pino, Monomono, The Funkees, Tunji Oyelana, Pax Nicholas & The Nettey Family, Kelenkye Band, Ariya Astrobeat Arkestra e por aí vai. Tem muita coisa boa, Pedrão… castiga!
    Abração

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