SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS… SIMPLES ASSIM!

Abril 4, 2010

    Neste exato instante bolha, estou tirando a poeira dos discos do bom e velho Blood, Sweat & Tears, bandaça norte-americana formada na cidade de Nova York e que ganhou notoriedade com o seu rock cativante e inovador, sempre incrementado por arranjos sofisticados e repletos de metais e cordas no melhor estilo das big bands tradicionais.

    O combo surgiu em 1967 sob a liderança do músico, compositor e produtor americano Al Kooper (à frente, na foto acima) que arregimentou uma tropa de músicos disposta a fundir o rock ao jazz, incorporando elementos do soul, do blues e da psicodelia e, desta forma, embalar seus temas de orinetação pop. O belo nome do agrupamento foi resgatado pelo próprio Kooper – inspirado por ter tocado com a mão sangrando em um show de fim de noite – através de um álbum de mesmo nome lançado por Johnny Cash, em 1963.

    Além de Al Kooper (órgão, piano e vocal), a formação original do BS&T contava com as presenças do guitarrista Steve Katz (parceiro de Kooper em sua banda anterior, o Blues Project), o baixista Jim Fielder (que já havia tocado com o Buffalo Springfield e com Zappa e os Mothers of Invention), Fred Lipsius (piano e saxofone), Randy Brecker (trompete e flugelhorn), Jerry Weiss (trompete e flugelhorn), Dick Halligan (trombone) e Bobby Colomby (bateria e percussão). Em sua fase embrionária, o grupo se apresentava como um quarteto (Al, Steve, Bobby e Jim) e a sua estréia veio em 1967 no palco do Cafe Au Go Go, em Nova York, quando abriram um show do combo psicodélico Moby Grape.

    Em pouco tempo assinaram com a gravadora Columbia e na sequência gravaram o álbum Child Is Father to the Man, aclamada estréia discográfica da trupe. Contendo canções tão inspiradas como “I Love You More Than You’ll Ever Know”, “Morning Glory” (de Tim Buckley), “My Days Are Numbered”, “Just One Smile”, “I Can’t Quit Her” e “Somethin’ Goin’ On” não é à toa que, décadas após o seu lançamento, ele ainda tenha a sua importância reconhecida: numa enquete realizada pela revista Rolling Stone em 2003, o álbum foi classificado em 264° lugar na lista dos “500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos”. Justo!

David Clayton-Thomas: a voz definitiva do BS&T

    De início brilhante, o curioso dessa história toda é que o som da banda só ganhou contornos definitivos com a entrada do vocalista canadense David Clayton-Thomas no homônimo segundo disco da turma, lançado em 1969. A saída de Kooper aconteceu porque Colomby e Katz desejavam que ele assumisse exclusivamente os teclados e deixasse o vocal para algum outro cantor que tivesse uma interpretação mais pungente que a dele. Kooper não topou a parada e afastou-se do grupo partindo para a carreira solo, gravando e produzindo não só discos individuais primorosos, como  outros tantos fantásticos ao lado de nomes como Stephen Stills, Mike Bloomfield e Shuggie Otis. Randy Brecker e Jerry Weiss também abandonaram o emprego suado: o primeiro se juntou à banda do pianista de jazz Horace Silver, antes de participar de uma infinidade de álbuns de artistas diversos; o segundo fundou a banda de rock Ambergris, gravando um obscuro álbum em 1970. 

    Quanto ao segundo trabalho do BS&T, trazia como grandes novidades, além do vocal classudo de David Clayton-Thomas, uma sonoridade mais pop do que a empregada no primeiro LP.  Com os desfalques, Colomby e Katz trataram de chamar novos músicos para completar o time: Chuck Winfield (trompete e flugehorn), Lew Soloff (trompete e flugehorn) e Jerry Hyman (trombone) se juntaram à agremiação, contabilizando no total um experiente plantel de nove instrumentistas. Ao contrário da estréia, o álbum foi rapidamente para o topo das paradas, ganhando o Grammy de disco do ano ao emplacar três singles de sucesso: “You’ve Made Me So Very Happy “ (de Brenda Holloway), “And When I Die” (de Laura Nyro) e “Spinning Wheel”, fantástica composição de Clayton-Thomas e, provavelmente, a canção mais popular da banda. A aclamação de crítica e público culminou com a participação do grupo no Festival de Woodstock. Uma saga de sangue, suor, lágrimas e lama… muita lama.

    Em 1970, a trupe lançou os discos Blood, Sweat & Tears 3 (com as conhecidas “Hi-De-Ho”, de Carole King e “Lucretia Devil”, de Clayton-Thomas) e a trilha sonora da comédia The Owl and the Pussycat, ambos não muito bem recebidos pela crítica e pelo público, obtendo vendas pouco expressivas. Só com o álbum Blood, Sweat & Tears 4 – quase todo com composições próprias dos seus integrantes – é que o prestígio retornou: mesmo sem nenhuma das músicas ter conseguido alcançar um lugar no Top 30 das paradas, ainda assim o play vendeu bem e a banda foi premiada com um disco de ouro.

    A formação no volume 4 era praticamente a mesma do álbum anterior, salvo a entrada de Dave Bargeron (trombone e tuba) no lugar de Jerry Hyman. Pra variar, um álbum com a metaleira rolando solta e faixas bem bacanas como “Go Down Gamblin”, “John The Baptist (Holy John)”, “Redemption”, “Lisa, Listen To Me”, “High On A Mountain” e “Mama Gets High”. Comercialmente falando, foi o último play de inéditas do grupo a emplacar. Uma coletânea lançada em 1972 pela Columbia ainda lhes garantiu mais um disco de ouro, mas os tempos de sucesso comercial do combo estavam com os seus dias contados. 

Sinister Vinyl Collection: https://sinistersaladmusikal.wordpress.com/category/blood-sweat-tears/


BLOOD, SWEAT & TEARS – NEW BLOOD (1972)

Abril 4, 2010

    Chegamos então ao subestimado New Blood, quinto álbum de carreira do grupo e um registro que muitos não costumam dar muita bola. A grande maioria dos apreciadores da discografia do Blood, Sweat & Tears tem preferência pelos quatro primeiros discos da banda. Dou total razão a eles, já que curto bastante esses trabalhos que flagram o auge da turma. Mas em um infalível Top 5 de melhores plays da trupe, não deixaria de fora este New Blood nem a pau.

    Volta e meia coloco pra rodar el bolachon lançado em 1972 que, além de apresentar faixas bem interessantes, traz também boas recordações no âmbito bolhal: paguei apenas 10 pilas no LP importado, novinho. Merrecas à parte, lembro que comprei o danado no escuro, sem conhecer o seu conteúdo. O que sabia do disco havia lido em algumas resenhas não muito elogiosas , e que me deixaram cabreiro quanto à sua qualidade. Mas no meu canto bolha, rodeado de discos e teias de aranha, pude enfim cravar meus ouvidos nesta belezinha discográfica e mais uma vez desafinar o coro dos contentes. 

    Banda reformulada, a começar pelo vocalista David Clayton -Thomas que preferiu sair devido à corrente mais jazzística que o combo demonstrava seguir, optando por retomar a sua carreira solo. Clayton –Thomas retornaria à banda em 1974, nas gravações do álbum New City. Nessa leva, também caíram fora os músicos Dick Halligan e Fred Lipsius.

    Para os lados do BS&T, Steve Katz (guitarra), Bobby Colomby (batera) e Jim Fielder (baixo), remanescentes do line-up original, se empenhavam em agrupar novos membros para dar o sangue, o suor e a raça em prol da banda. Com Jerry Fisher assumindo o posto de principal vocalista e mais as participações do pianista de jazz Larry Willis, do guitarrista sueco Georg Wadenius e de um naipe de metais de respeito que incluía Chuck Winfield, Lew Soloff, Dave Bargeron e ainda Lou Marini (futuro Blues Brothers), o registro é daqueles que melhoram a cada nova audição.

O BS&T em 1972: sangue novo no pedaço 

    Com tantas mudanças na formação e um título desses, o resultado não poderia ser outro senão sangue novo no pedaço, com muito swing plasmático percorrendo as veias do groove (“Down in the Flood”, de Bob Dylan); baladas avassaladoras sangrando soul (“Touch Me” e “So Long Dixie”); solinho de guitarra e vocal de Georg Wadenius a la George Benson (“Maiden Voyage”, de Herbie Hancock); além de belíssimos arranjos vocais muito bem assessorados por instrumentos de sopro magistrais ( “Alone”, “I Can’t Move No Mountains” e “Snow Queen”). Enfim, uma completa transfusão sonora, propícia para sintonizar o groove com as batidas do coração. Um álbum com uma levada mais jazzística que a dos registros anteriores, mas que mantém em evidência aquele frescor pop característico da banda. 

    Apesar das desconfianças geradas com a nova (pero no mucho)  abordagem musical e com a saída de Clayton -Thomas , ainda assim o álbum conseguiu encaixar o single “So Long Dixie” entre as 45 mais tocadas nas rádios americanas. O álbum chegou ao Top 40, mas não foi o suficiente para que alcançasse bons números em termos de vendas.

    Em 1973 foi a vez de Steve Katz pedir as contas e partir para o ramo das produções musicais, além de adotar o American Flyer como a sua mais nova instituição, gravando dois álbuns: a estréia homônima (1976) e o derradeiro Spirit of a Woman (1977). O glorioso Blood, Sweat & Tears prosseguiu a sua jornada e vieram os álbuns No Sweat (1973) e Mirror Image (1974) contendo algumas boas faixas mas que, como um todo, apresentavam resultados apenas razoáveis. Só com o lançamento de New City em 1975 (que marcou a volta do vocalista David Clayton-Thomas) é que o grupo alcançou um bom momento, muito por conta da versão de “Got To Get You Into My Life“, dos Beatles. Outros álbuns foram produzidos – More Than Ever (1976) e Brand New Day (1977) -, seguidos de uma desastrosa turnê pela Europa em 1978. Foi o suficiente para os membros decidirem que era a hora da banda dar um tempo em suas investidas musicais.

Sangue, suor, lágrimas e metaleira

    Em 1979, já sem nenhum dos membros fundadores por perto (Fielder e Colomby sairam em 1973 e 1976, respectivamente), David Clayton-Thomas decidiu remontar o BS&T, convocando uma tropa de músicos canadenses. Gravaram o álbum Nuclear Blues que saiu pela gravadora Avenue Records em 1980. Considerado por muitos fãs como o pior registro do Blood, Sweat & Tears, o álbum era mais uma tentativa de reinventar a banda, apelando para uma sonoridade mais funk, no embalo do som praticado por bandas como Tower of Power e War, o que definitivamente não agradou aos torcedores da agremiação. Resultado: o LP foi um estrondoso fracasso comercial. Mais uma rápida turnê sem maiores consequências e em 1981, novamente a banda se desfez.

    Clayton-Thomas ainda realizou turnês nos anos seguintes, arrastando o nome da banda por quase 20 anos. Em 2004, ele anunciou que seguiria novamente sua carreira solo e que o BS&T  havia, enfim, encerrado as suas atividades. Desde então, retornos com a participação de alguns dos membros originais ocorreram, promovidos em ocasiões especiais. As últimas informações dão conta que desde 2005 – com o aval de Bobby Colomby – Chuck Negron (um dos vocalistas do Three Dog Night) tem excursionado utilizando em vão o nome Blood, Sweat & Tears featuring Chuck Negron. Castiga!

    Para os colecionadores de plantão com ouvidos aguçados e que por ventura ainda não possuem nenhum material do Blood, Sweat & Tears, vale a pena correr atrás de alguns desses álbuns. Minha discoteca básica inclui os cinco primeiros registros, e podemos engordar a conta adicionando o New City e o In Concert, ao vivo. Todos relançados em edições remasterizadas, a maioria com faixas bônus. Prepare o bolso e boa falência!

Faixas: 01. Down in the Flood / 02. Touch Me / 03. Alone / 04. Velvet / 05. I Can’t Move No Mountains / 06. Over the Hill / 07. So Long Dixie / 08. Snow Queen / 09. Maiden Voyage

BLOOD, SWEAT & TEARS – DOWN IN THE FLOOD

BLOOD, SWEAT & TEARS – VELVET

BLOOD, SWEAT & TEARS – I CAN’T MOVE NO MOUNTAINS

BLOOD, SWEAT & TEARS – OVER THE HILL

BLOOD, SWEAT & TEARS – SO LONG DIXIE


SINISTER VINYL COLLECTION: BLOOD, SWEAT & TEARS – BLOOD, SWEAT & TEARS 4 (1971)

Abril 4, 2010

Artista: Blood, Sweat & Tears

País: United States 

Álbum: Blood, Sweat & Tears 4 

Ano de lançamento: 1971

Formação: David Clayton-Thomas (vocal), Steve Katz (guitarra, harmônica, mandolin e vocais), Fred Lipsius (saxofone, clarinete, piano e órgão), Chuck Winfield (trompete e flugehorn), Lew Soloff (trompete e flugehorn), Dick Halligan (órgão, piano, flauta e trombone), Jim Fielder (baixo e guitarra), Dave Bargeron (trombone e tuba) e Bobby Colomby (bateria e percussão); e mais as participações de Don Heckman (clarinete) e Michael Smith (congas).

Produção: Don Heckman, Bobby Colomby e Roy Halee

Gênero musical: Rock / Jazz-Rock / Pop Rock / Pop Psicodélico / R&B

Selo: Columbia / KC 30590

Prensagem: United States  

Lado A: 01. Go Down Gamblin’ / 02. Cowboys and Indians / 03. John The Baptist (Holy John) / 04. Redemption / 05. Lisa, Listen To Me / 06. A Look To My Heart

Lado B: 01. High On A Mountain / 02. Valentine’s Day / 03. Take Me In Your Arms (Rock Me a Little While) / 04. For My Lady / 05. Mama Gets High / 06. A Look To My Heart (Duet)

BLOOD, SWEAT & TEARS – GO DOWN GAMBLIN’

BLOOD, SWEAT & TEARS – COWBOYS AND INDIANS

BLOOD, SWEAT & TEARS – JOHN THE BAPTIST (HOLY JOHN)

BLOOD, SWEAT & TEARS – REDEMPTION

BLOOD, SWEAT & TEARS – LISA, LISTEN TO ME

BLOOD, SWEAT & TEARS – TAKE ME IN YOUR ARMS (ROCK ME A LITTLE WHILE)

BLOOD, SWEAT & TEARS – FOR MY LADY

BLOOD, SWEAT & TEARS – A LOOK TO MY HEART (DUET)