CANNED HEAT: A FASE DE OURO DOS REIS DO BOOGIE

Dezembro 16, 2008

    E o Canned Heat? Que banda sensacional! Uma agremiação idolatrada pelos hippies e que em plena onda psicodélica californiana propagava o seu mais profundo amor pelo blues. Fundada em 1965 por Bob Hite e Alan Wilson – dois obsessivos colecionadores de discos de blues e admiradores inveterados do estilo – esta trupe de Los Angeles ganhou fama mundial depois das incendiárias participações nos festivais de Monterey e Woodstock no final dos anos 60. 

    Blueseira de alta combustão, seu nome foi retirado de uma velha canção escrita por Tommy Johnson, em 1928, chamada “Canned Heat Blues”. A letra falava sobre um alcoólatra desesperado que, em meio à Lei Seca, misturava Sterno (um gel combustível feito de álcool desnaturado e utilizado para aquecer alimentos) à sua bebida, visando atingir o efeito etílico desejado. Designação propícia para a inflamável combinação de blues, rock, boogie e psicodelia que seria deflagrada pela banda americana a partir de sua configuração.

 

    Desde o seu surgimento o combo passou por várias alterações no seu line-up, sempre empunhando a bandeira do blues e tendo como referenciais os grandes inovadores do gênero como John Lee Hooker, Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Elmore James, B.B. King, Albert King e Buddy Guy. Mesmo com a morte de três de seus membros originais, o Canned Heat permanece na ativa em pleno século 21, agora sob a liderança do baterista mexicano Adolfo “Fito” de la Parra, um dos integrantes da formação clássica. 

    

    Do quinteto que marcou a fase tradicional, apenas “Fito” de La Parra e o baixista Larry Taylor sobreviveram aos abusos dos anos 60 e 70. Alan Wilson partiu para outro plano, ainda em 1970, após ingerir uma dose letal de barbitúricos. De temperamento depressivo, as evidências indicam um aparente suicídio, mas é um assunto que sempre gerou controvérsias. O frontman Bob Hite morreu em 1981, depois de uma apresentação em Los Angeles, vítima de um ataque cardíaco, acelerado pelo seu intenso consumo de drogas. Em 1997 foi a vez do guitarrista Henry Vestine que, ao final de uma turnê européia, morreu de insuficiência cardíaca e respiratória num hotel de Paris.

    

    Tragédias à parte, a blueseira altamente contagiante praticada pelo Canned Heat ultrapassou décadas e pode ser apreciada no compasso dos mais de 30 álbuns lançados a partir de 1967. Como sou um bolha camarada, selecionei para o blog sinistro os primeiros álbuns do grupo, englobando o período com a formação clássica. Portanto acendam a chama do blues e sigam o percurso desta banda que é, indisfarçavelmente, uma das prediletas da casa.

 

TOMMY JOHNSON – CANNED HEAT BLUES 


CANNED HEAT – CANNED HEAT (1967)

Dezembro 16, 2008

    A estréia discográfica do Canned Heat veio em grande estilo, um mês após a sua aparição no Monterey Pop Festival. Um evento realizado entre os dias 16 e 18 de junho de 1967, recheado de atrações sensacionais: Big Brother and the Holding Company, Country Joe and the Fish, Al Kooper, Animals, Electric Flag, Quicksilver Messenger Service, Steve Miller Band, Moby Grape, Byrds, Jefferson Airplane, Booker T. & the M.G.s, Otis Redding, Ravi Shankar, Blues Project, Buffalo Springfield, The Who, Jimi Hendrix Experience, Grateful Dead, Butterfield Blues Band, The Mamas & the Papas… Fico imaginando a alegria que seria assistir essa turma no auge de suas carreiras. Sorte de quem estava lá!   

 

    Buenas, devaneios à parte, o auto-intitulado debut do Canned Heat é um registro fabuloso e apresenta uma das principais características da trupe: o resgate cultural e histórico do blues, através de inovadoras versões para velhos clássicos do estilo. Sob o comando do frontman Bob Hite (vocal, gaita) e do polivalente Alan Wilson (guitarra, piano, harmônica, vocais), a banda transita na essência do blues rural do Delta do Mississippi e dispara até o blues urbano de Chicago e Detroit, mandando ver no cruzamento explosivo do blues-rock com el boogie terrible.

 

    Completam o quinteto o guitarrista Henry Vestine (ex-membro do Mothers of Invention e que fora despedido por Zappa por causa do uso contínuo de drogas), o baixista Larry Taylor (ex-Moondogs e que já havia sido músico de apoio para Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e os Monkees) e o baterista Frank Cook (que vinha de experiências jazzísticas, tocando ao lado de nomes como o baixista Charlie Haden e o trompetista Chet Baker).  

 

Alan Wilson e Bob Hite, no comando das ações do Canned Heat 

 

    Destrinchando as raízes do blues, o álbum traz versões envenenadas para os clássicos “Rollin’ And Tumblin” (Muddy Waters), “Dust My Broom” (Robert Johnson/Elmore James), “Evil Is Going On” (Willie Dixon) e ‘Help Me” (Sonny Boy Williamson ll), entre outros temas tradicionais. A dupla de guitarristas Henry Vestine e Alan Wilson transborda perfeita harmonia, combinando slide e solos distorcidos embriagantes. Wilson aproveita a deixa para demonstrar todo o seu domínio na harmônica, provando porque se tornou ao longo da história, um dos grandes nomes do instrumento. Escutem “Goin’ Down Slow” (St. Louis Jimmy Oden) e comprovem. Quem também está tinindo é Bob Hite, que toma de assalto o ambiente sonoro com sua voz rasgada e cheia de energia, cantando a maioria das canções.

 

    Outras faixas de destaque são as famigeradas “Catfish Blues” (Robert Petway) e “Bullfrog Blues” (William Harris) em adaptações contendo improvisos e inovações rítmicas bem interessantes, o que valorizou o trabalho e fez com que o álbum fosse recebido de braços abertos até mesmo pelos mais conservadores e puristas do blues da época. Tenho o vinil original inglês, mono, lançado pelo selo Liberty. Não vendo, não troco e não empresto. É de estimação!

 

    Detalhe: a polêmica capa mostra o quinteto ao redor de uma mesa, consumindo um coquetel a base de Sterno. Como já foi dito, Sterno é um combustível em gel feito de álcool desnaturado. Sua composição química envolve basicamente etanol, metanol, água e um óxido anfotérico gelificante. Uma solução que se for dissolvida em água, torna-se uma bebida altamente perigosa. Consumida pela população mais pobre, esteve associada a várias mortes na América em décadas passadas, a maioria por causa do envenenamento por metanol. Depois dessa, vou tomar uma dose de Jack Daniel’s e já volto…

 

Faixas: 01. Rollin’ And Tumblin’ / 02. Bullfrog Blues / 03. Evil is Going On / 04. Goin’ Down Slow / 05. Catfish Blues / 06. Dust My Broom / 07. Help Me / 08. Big Road Blues / 09. The Story Of My Life / 10. The Road Song / 11. Rich Woman

 

CANNED HEAT – ROLLIN’ AND TUMBLIN’

 

 

RORY GALLAGHER – BULLFROG BLUES

 

CANNED HEAT – EVIL IS GOING ON

LIGHTNIN’ HOPKINS – GOIN’ DOWN SLOW

CANNED HEAT – CATFISH BLUES

HOWLIN’ WOLF – DUST MY BROOM

CANNED HEAT – HELP ME

CANNED HEAT – BIG ROAD BLUES

CANNED HEAT – THE STORY OF MY LIFE

CANNED HEAT – THE ROAD SONG

CANNED HEAT – RICH WOMAN


CANNED HEAT – BOOGIE WITH CANNED HEAT (1968)

Dezembro 16, 2008

    O segundo álbum do grupo foi lançado em janeiro de 1968 e posso dizer, sem medo de errar, que é um de seus melhores registros. Boogie With Canned Heat marca a estréia do baterista mexicano Adolfo de la Parra (ex-integrante de várias bandas do rock mexicano, desenvolveu trabalhos ao lado de nomes do r&b como T-Bone Walker, Ben E. King, Etta James e The Platters. Também fez parte do Bluesberry Jam, o embrião do Pacific Gas & Electric) substituindo Frank Cook, dando início àquela que é considerada a formação clássica da banda.

 

    É o disco de maior sucesso comercial do grupo e que o colocou nas paradas de sucesso, por conta do hit “On The Road Again” – um tema adaptado por Alan Wilson a partir de uma canção de mesmo nome, gravada em 1953 pelo bluesman Floyd Jones. Um dos maiores clássicos da banda, consagrando Wilson que com sua harmônica mágica despeja vibratos e efeitos hipnóticos chapantes. Sua voz de falsete, exalando um agudo frágil e peculiar, conduz a música que, aliada a sonoridade psicodélica que a envolve, fez a cabeça dos hippies e malucos espalhados pelos festivais da época.

 

    Outros destaques são as faixas “Evil Woman” (com um riff de guitarra poderoso, baixo carregado e uma levada próxima do hard rock), “My Crime” (blueseira sensacional, com letra lembrando o incidente ocorrido em Denver, em agosto de 67, quando a banda foi detida pela polícia local por porte de maconha), Turpentine Moan” (com o slide correndo solto e participação do pianista Sunnyland Slim) e “Amphetamine Annie” (um blues entorpecente, com letra inspirada numa conhecida que morreu de overdose de estimulantes. Tornou-se um tema antidrogas incensado pelos fãs… por mais incrível que isso possa parecer).

 

    Outra pérola é a versão de doze minutos de “Fried Hockey Boogie”, creditada ao baixista Larry Taylor, mas que na verdade é uma derivação do clássico “Boogie Chillen” de John Lee Hooker. Um “boogie experimental” abrindo espaço para as improvisações, com os membros desenvolvendo as suas habilidades nos instrumentos. A semelhança com o clássico “La Grange” do ZZ Top é evidente e essa “coincidência” quase levou o Canned Heat a processar o trio texano por plágio. Chama o Pepe Legal!

 

Da esquerda para a direita: Hite, Fito, Wilson, Vestine e Taylor 

 

    No geral, uma obra indispensável para os amantes do blues e que traz a assinatura da trupe na maioria das faixas, diferentemente do primeiro álbum, só com composições alheias. Mas o que impressiona é o vigor do núcleo Hite/Wilson/Vestine/Taylor/Fito, que demonstra muita afinidade e consistência, com performances individuais arrebatadoras. Henry Vestine, por exemplo, traduz toda a sua competência nas seis cordas em faixas como “World In A Jug” e na instrumental “Marie Laveau”, solando com muita propriedade. Depois deste trabalho sensacional, não foi preciso muito tempo para que fossem aclamados na América como os Reis do Boogie.   

 

    Ainda em 1968, depois da participação no New Pop Festival no mês de setembro, partiram para a sua primeira turnê européia. Vários shows, exposição em capas de revista, execução maciça nas rádios e aparições nos programas Top of Pops da TV Britânica e Beat Club da TV ARD da Alemanha. Foi o pulo do gato para que “On the Road Again” alcançasse o topo das paradas na Inglaterra, Alemanha e em praticamente toda a Europa. Além do vinil original, tenho o cd que saiu em 1999 pelo selo francês Magic Records, com seis faixas bônus.  

       

    Neste álbum, a ficha técnica traz pela primeira vez os apelidos incorporados aos nomes dos músicos – alguns criados pelos produtores Skip Taylor e John Hartmann. Alan “Blind Owl” Wilson já havia adotado a alcunha de “Coruja Cega” que ganhou do músico John Fahey, em 1965, numa referência aos óculos de lentes grossas que usava para compensar sua baixa visão. O carismático Bob “The Bear” Hite, “O Urso”, também já carregava consigo este apelido, possivelmente inspirado em nomes como o de Howlin Wolf e claro, por ser um bluesman de grandes proporções. Seguiram-se a eles Henry “Sunflower” Vestine (“O Girassol”), Larry “The Mole” Taylor (“O Toupeira”) e Adolfo “Fito” de la Parra. Mais adiante, Harvey “The Snake” Mandel (“O Cobra”) também ganharia o seu codinome ao integrar a banda. Animal!   

Faixas: 01. Evil Woman / 02. My Crime / 03. On The Road Again / 04. World In A Jug / 05. Turpentine Moan / 06.Whisky Headed Woman No. 2 / 07. Amphetamine Annie / 08. An Owl Song / 09. Marie Laveau / 10. Fried Hockey Boogie / Bônus: 11. On The Road Again / 12. Boogie Music / 13. Goin’ Up The Country / 14. One Kind Favor / 15. Christmas Blues / 16. The Chipmunk Song

CANNED HEAT – EVIL WOMAN

SPOOKY TOOTH – EVIL WOMAN

CANNED HEAT – MY CRIME

CANNED HEAT – ON THE ROAD AGAIN

CANNED HEAT – ON THE ROAD AGAIN

CANNED HEAT – ON THE ROAD AGAIN

CANNED HEAT – WORLD IN A JUG

CANNED HEAT – TURPENTINE MOAN / ON THE ROAD AGAIN

CANNED HEAT – WHISKY HEADED WOMAN N° 2

CANNED HEAT – AMPHETAMINE ANNIE

CANNED HEAT – AN OWL SONG

CANNED HEAT – MARIE LAVEAU

CANNED HEAT – FRIED HOCKEY BOOGIE

CANNED HEAT – BOOGIE MUSIC