JARDS MACALÉ – MALDITO POR EXCELÊNCIA

Novembro 11, 2007

    Os malditos… benditos sejam! Dentre os tantos músicos relegados ao ostracismo no universo da música brasileira, Jards Macalé é um dos que ocupam lugar cativo na minha prateleira especial para frascos amaldiçoados. A fragrância exalada pela sua música é a essência dos bons sons. Taí uma das maiores sacanagens já vistas com artistas da MPB em todos os tempos, já que seu talento é subestimado e incompreendido até os dias de hoje…

      

    Carioca, nascido em 1943, Jards Anet da Silva ganhou o apelido que seria incorporado ao nome ainda moleque, época em que maltratava a bola nos jogos de futebol com os amigos. Maldito por natureza, jogava tão mal que ganhou a alcunha do pior jogador do Botafogo da época: Macalé! Pronto… era a senha estratégica pra definir aquele que iria, com prazer, desafinar o coro dos contentes.

  

    Da infância nos morros da Tijuca até a adolescência em Ipanema, Macalé sempre esteve rodeado de músicos, a começar pela própria família e pelos vizinhos famosos (Vicente Celestino era um deles). Foi nesse período que iniciou seu aprendizado musical: saraus familiares, idas à Rádio Nacional, trabalhos com a Orquestra Tabajara… Aprendeu a ler música e se alimentou de sambas, maracatus, frevos, choros e serestas.

      

    Entre 1959 e 1969, desenvolveu e aprimorou seu trabalho de músico e instrumentista. Formou conjuntos musicais e tocou jazz, seresta e samba-canção. Estreou como arranjador e letrista e viu duas de suas primeiras composições serem gravadas por vozes femininas do quilate de Elizeth Cardoso e Nara Leão. Conheceu Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Capinam, Maria Bethânia, Gal Costa… Mais do que  acumular cultura musical, estava assistindo de perto o desenvolvimento do tropicalismo. Tímido e meio deslocado, sua participação no movimento nunca foi na linha de frente, se restringindo a discussões domésticas e outras amenidades… 

 

  

    Na verdade, Macalé sempre rejeitou essa postura tropicalista. No auge do movimento, preferiu se afastar e se aprofundar nos estudos musicais, aprendendo piano, violoncelo e orquestrações e aguçando o trato com o violão e seu trabalho autoral. Nesse ínterim, sua verve lisérgica absorveu a onda psicodélica promovida pelos Beatles, Jimi Hendrix e grupos de rock da ensolarada Califórnia dos anos 60. 

      

    Em 1969, tomado por essa influência, se apresenta no IV Festival Internacional da Canção ao lado dos Brazões, interpretando “Gotham City”, paródia às histórias em quadrinhos e clássica parceria com Capinam. “Aos quinze anos eu nasci em Gotham City / E era um céu alaranjado em Gotham City / Caçavam bruxas no telhado em Gotham City / No dia da independência nacional / Cuidado! Há um morcego na porta principal” , dizia a letra, cutucando o regime militar e a ditadura que se estabelecia no País. Impregnado de psicodelia e ousadia, foi incompreendido pela platéia e vaiado em uníssono. A partir daí, o rótulo de “maldito” o acompanharia para sempre. Para comprovar a tese, no mesmo ano gravou um compacto duplo intitulado Só Morto. Mal distribuído e pessimamente mixado, foi estrondoso fracasso. Era a sina se manifestando mais uma vez…

      

    Mesmo com a nuvem negra da maldição rondando sua cabeça, prosseguiu realizando trabalhos em trilhas de filmes do Cinema Novo e destacando-se como compositor, arranjador e diretor musical em shows e discos de artistas nacionais. É dessa fase o espetáculo Gal a Todo Vapor que virou disco duplo de Gal Costa em 1971 e jogou “Vapor Barato” (composição sua em parceria com Waly Sailormoon) nas rodas de sucesso da nação hippie.

    

    No começo dos anos 70, chegou a se mudar para Londres, onde Caetano Veloso estava exilado, para fazer o trabalho de arranjos no disco Transa, tocando inclusive violão e guitarra. No final das contas, outra decepção: álbum na praça e seu nome não constava nem nos créditos do disco. Era a maldição rondando Macalé tal qual um urubu sobrevoa uma carniça…  

    De volta ao Brasil, o afastamento de Caetano foi inevitável e até hoje o assunto rende polêmicas e respostas atravessadas de ambos. À partir daí, alguns novos shows bastaram para que Macalé percebesse que já era hora de ser o intérprete de suas próprias canções. Foi quando propôs a Guilherme Araújo a gravação de um elepê. Carregando o fardo de maldito, era hora de escancarar toda sua carga melancólica e existencial em vinil. Obra prima à vista…  

Waly Salomão ou Waly Sailormoon (1944-2003) 

    Começamos a trabalhar exatamente naquele período que marcava um vazio depois do AI-5, depois de tudo o que foi o tropicalismo em 1968 e que foi cortado violentamente no final daquele ano. 1969 começava como um período de esmagamento total, vindo de cima, do poder. A gente conversava muito e eu ficava incitando o Macalé a quebrar os vínculos com os remanescentes da bossa nova ou então com a música de concerto, com aquele perfeccionismo. Insistia na necessidade dele criar um espaço próprio. Isso era fundamental naquele momento – uma voz que continuasse cantando e mantivesse acesa a chama. Nessa época escrevi e Macalé musicou Vapor Barato, de letra oposta à tendência “liricista” e nebulosa que predominava. Era direta, frontal, dizendo o que era possível naquele momento de desencanto: “Oh, sim, eu estou tão cansado, / Mas não pra dizer / Que eu não acredito mais em você”. “Vapor Barato” foi gravada por Gal Costa no LP Fa-Tal, Gal a Todo Vapor e todo mundo sabia tocá-la no violão. Parecia o hino de um pobre woodstock caboclo.” 

GAL COSTA / ZECA BALEIRO – VAPOR BARATO

 

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JARDS MACALÉ – JARDS MACALÉ (1972)

Novembro 8, 2007
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    Jards Macalé, o disco, chegou às lojas em 1972, trazendo um registro ousado, transgressor e anti-comercial do genial músico carioca. Com produção simples, mas deveras eficiente, nos brinda com a poética marginal de Macalé em comunhão com os fiéis parceiros Capinam, Waly Sailormoon e Torquato Neto. Letras escritas entre 1969 e 1971, carregadas de questões existenciais e submersas em embriagadas doses de melancolia.

 

    Um trabalho com uma sonoridade crua e despido de ambições, mas repleto de arranjos com quebras de andamento e improvisos fantásticos que, aos poucos, vão desnudando performances magistrais do trio Macalé (violão e vocal), Lanny Gordin (violão e baixo) e Tuti Moreno (bateria). Uma união perfeita que não precisou de mais de uma semana de ensaios para registrar esta legítima jam session nos estúdios. 

 

    A combinação de elementos que agregam rock, bossa-nova, samba, tropicalismo e jazz é a cama perfeita para que Macalé descarregue seu timbre de voz obsessivo e compartilhe seu acervo de poesias malditas made subúrbio carioca. O resultado é um dos melhores discos da MPB em todos os tempos. E dos mais tristes também… 

 

    A viagem começa nos primeiros acordes de “Farinha do Desprezo” – uma mistura arrojada de rock, samba e jazz, com direito a dedilhado monstro de Lanny Gordin e a quebras de tempo e viradas de batera de Tuti Moreno. “Só vou comer agora da farinha do desprezo / alimentar minha fome para que nunca mais me esqueça / ah como é forte o gosto da farinha do desprezo / só vou comer agora da farinha do desejo” diz a letra que pode ser interpretada de uma maneira mais química, se é que você me entende. Essa provocação passou batida pela censura…  

 

    Na sequência, ouve-se trecho a capella de “Vapor Barato” – hino hippie do início dos anos 70, cujo título, segundo Sailormoon é “uma gíria para a maconha, que dá barato” -, cantada de forma quase fúnebre, servindo de introdução para a maravilhosa “Revendo Amigos”, com o trio arrebentando na parte instrumental. De cair o queixo! O verso “Se me der na veneta eu vou / se me der na veneta eu mato / se me der na veneta eu morro / e volto pra curtir / Se chego num dia não / E se pintar um bode / Eu vou, eu mato, eu morro e volto pra curtir” teve de ser refeito várias vezes, por conta da censura que barrou a música 12 vezes. O pessoal da “linha dura” tomou essas palavras como uma referência à resistência armada que havia no Brasil na época. Era a ditadura no encalço da moçada…  

 

    “Mal Secreto” é outra beleza, com letra divinamente melancólica e de caráter confessional (“Massacro meu medo / mascaro minha dor já sem sofrer / Não preciso de gente que me oriente”), com Lanny detonando no baixo elétrico. É o fino da bossa e da fossa… ô loco, preciso de uma dose de whisky! “Com as mãos frias, mas com o coração queimando” é o discurso que se segue na romântica “78 Rotações”, com alternâncias de linha de baixo e frases de violão geniais, maquinando a desconstrução do samba… que é isso, malandragem!

 

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   Lanny Gordin, Macalé e Tuti Moreno   

 

    O álbum segue com canções que beiram um ataque de nervos. Nas entrelinhas, o desconforto com a censura e a ditadura militar… tempos de exílio e barra pesada: “estou cansado e você também / vou sair sem abrir a porta / e não voltar nunca mais” diz a letra da inconsolável “Movimento dos Barcos”; e ainda “Meu amor, me agarra e geme e  treme e chora e mata”… tristes até à medula da alma. 

 

    E ainda divagando o efeito dos próprios pecados, o hino “Let’s Play That” surge como um suingue de malandro carioca: “e eis que o anjo me disse / apertando a minha mão / entre um sorriso de dentes, vai bicho / desafinar o coro dos contentes”, entrega a letra de Torquato Neto, em uma levada torta, cheia de timbres e grooves… Macalé deformando o violão!  

MP3 Let’s Play That: http://www.divshare.com/download/364932-82b 

    Tem cover de Luiz Melodia no rock suicida “Farrapo Humano”, com suas quebras de andamento e versos antológicos (“eu choro tanto, me escondo, não digo / viro um farrapo, tento o suicídio / com caco de telha, com caco de vidro”). E da melhor maneira possível, segue de forma sintomática com o samba “Morte”, de Gilberto Gil. Para encerrar o álbum, os versos apoteóticos de “Hotel da Estrelas”: “dessa janela sozinha / olhar a cidade me acalma / estrela vulgar a vagar / rio e também posso chorar”… linda e emotiva, tal qual o improviso no violão.  

    Tamanha ousadia, acabou custando caro ao nosso Macalé. O disco saiu com uma pequena tiragem e passou meio que batido ao público e à crítica, e com poucas vendas, logo foi retirado de catálogo. Com o passar dos anos, o desprezado álbum se tornou uma preciosidade vinílica, contendo verdadeiras pérolas negras da obscuridade musical, empoeiradas e esquecidas em algum canto do passado… bendita maldição!

    Depois dessa obra-prima, Macalé seguiria trilhando o caminho dos malditos. Com sua inquietude e irreverência na busca pelo novo, pariu outros álbuns históricos em sua carreira, como o censurado “Banquete dos Mendingos” (gravado com uma turma da pesada, em 1973, e só liberado em 1979), o obrigatório “Aprender a Nadar” (1974), “Contrastes” (1977) ou “Let’s Play That” (gravado em parceria com o percussionista Naná Vasconcelos, em 1983, e só lançado em 1994).

    São ótimas pedidas para explorar um pouco da obra discográfica do subestimado e talentoso Macalé, nosso maldito por excelência!  

Faixas: 01. Farinha do Desprezo – 02. Revendo Amigos – 03. Mal Secreto – 04. 78 Rotações – 05. Movimento dos Barcos – 06. Meu Amor me Agarra & Geme & Treme & Chora & Mata – 07. Let’s Play That – 08. Farrapo Humano / A Morte – 09. Hotel das Estrelas

JARDS MACALÉ – FARINHA DO DESPREZO

JARDS MACALÉ – REVENDO AMIGOS

JARDS MACALÉ – MAL SECRETO

JARDS MACALÉ / LANNY GORDIN – MAL SECRETO

WALY SAILORMOON / LUIZ MELODIA – MAL SECRETO

JARDS MACALÉ – MOVIMENTO DOS BARCOS

JARDS MACALÉ – MEU AMOR ME AGARRA & GEME & TREME & CHORA & MATA

JARDS MACALÉ – FARRAPO HUMANO

LUIZ MELODIA – FARRAPO HUMANO

GAL COSTA – HOTEL DAS ESTRELAS